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Nunca planejei o sucesso!, diz brasileira presidente da Kimberly Clark Chile

Primeira brasileira a assumir uma presidência da Kimberly-Clark, Ana Paula Bógus tem 39 anos e está há apenas 5 anos na empresa

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Ana Paula Bógus: executiva trabalha há 5 anos na Kimberly-Clark e há pouco mais de três meses assumiu a presidência no Chile

A rotina da primeira mulher brasileira a assumir uma presidência na multinacional Kimberly Clark anda para lá de agitada. “Estou trabalhando por volta de 14 horas por dia”, diz Ana Paula Bógus, que há pouco mais de três meses está no comando da operação da empresa no Chile, a quinta maior da Kimberly-Clark na América Latina.

Aos 39 anos e há 5 anos na empresa, ela sabe que sua ascensão profissional foi rápida, mas diz que o sucesso não foi planejado. Antes, ele veio como consequência. “O que fez a diferença foi a minha naturalidade, meu jeito de lidar com as pessoas”, diz a executiva.

Ela é formada em administração de empresas pela PUC de São Paulo, pós-graduada em economia internacional e tem MBA pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Antes de trabalhar na Kimberly- Clark, Ana Paula trabalhou sete anos na Nestlé.

Em uma entrevista concedia à Exame.com, ela falou sobre a sua carreira, as mudanças na sua trajetória – que começou no mercado financeiro -, a vida como expatriada e os desafios de ser mulher e presidente de uma grande empresa. E não são poucos. A executiva conta que foi barrada em um grupo de networking de presidentes de empresa no Chile, só por ser mulher. Confira os principais trechos da entrevista:

Quando começou a sua carreira, a senhora imaginava que chegaria à presidência de uma multinacional? Este algum dia foi o seu objetivo?

Ana Paula Bógus: Isso nunca foi planejado, acho que é por isso que cheguei aonde cheguei. O que fez a diferença foi a minha naturalidade, meu jeito de lidar com as pessoas, de tratar todos da mesma maneira. Chegar à cadeira de gerente geral foi uma consequência.

Seu início de carreira foi no setor bancário, a senhora passou 7 anos trabalhando no mercado financeiro até partir para área negócios. O que a levou a essa transição na carreira?

Ana Paula Bógus: Comecei a trabalhar em banco como secretária no Bamerindus. E, depois, entrei no programa de estágio. O que eu mais gostava era a parte de relacionamento com clientes, trazer lucro por meio do vínculo com o cliente. Saí da área bancária porque consegui uma bolsa e fui fazer MBA de um ano e meio nos Estados Unidos. Lá, conheci o gerente de supply chain da Nestlé na época que sempre me dizia que eu tinha que sair de banco.

O mercado financeiro é solitário. Para você estar bem e receber um bônus alto, alguém tem que estar mal e receber bônus menor. Isso me incomodava. Na indústria isso não acontece. Se for bem, todos vão bem. Conversei com ele sobre isso e acabei entrando na Nestlé, ainda sem posição. Achei que era a hora de mudar. Fiquei como trainee de gerente e fui para a área comercial. Fiquei sete anos, antes de ir para a Kimberly-Clark.

Então, essa mudança na carreira estava ligada aos seus valores pessoais?

Ana Paula Bógus: Sim, sempre busquei felicidade no trabalho e a possibilidade de ser quem eu sou. Busquei um lugar que se encontrasse com meus valores e onde eu pudesse ser natural. Essa mudança de banco para indústria me ajudou muito a ser quem eu sou.

Depois de 3 anos na área comercial da Kimberly-Clark, a senhora foi convidada para ser diretora da área de RH, em 2012. Por que você acha que a convidaram?

Ana Paula Bógus: Quando entrei na Kimberly-Clark, fiz uma entrevista de 3 horas com o presidente João Damato e ele me disse que me daria uma folha em branco para eu escrever minha história. Perguntou-me onde eu me via. Respondi que gostava de gente. Perguntou-me em que eu era especialista e eu disse: em tirar o melhor das pessoas. Quando a diretora de RH, três anos depois, foi se aposentar, ele se lembrou desta conversa e perguntou-me o que eu achava de assumir a posição.

Foi difícil tomar a decisão?

Ana Paula Bógus: As pessoas me diziam que eu não podia fazer isso. Falavam que ir para área de recursos humanos, logo após ter um filho, era um mau sinal no currículo. Lembro-me que na época eu pensava se deveria ouvir meu coração ou fazer o que era bem visto aos olhos do mercado. Decidi ouvir meu coração.

O que mudou?

Ana Paula Bógus: Foi uma mudança de carreira. O que mais mudou foi esse movimento de liderança por influência. Na área de negócios, você conduz e entrega resultados por meio do esforço da sua equipe. Está na sua mão entregar os resultados, você lidera por execução.

Nas áreas de suporte, você depende de outro líderes. É preciso praticar a liderança por influência, influenciar o board para a tomada de decisões. O mesmo acontece com o CEO. Ele não faz nada sozinho, depende do engajamento de outros líderes. Vivenciei essa mudança e isso tem me ajudado muito agora na posição em que estou.

A senhora entrou na empresa em 2008 e em 2014 já é presidente. Para você foi rápido?

Ana Paula Bógus: Foi uma ascensão rápida, sim. Não sinto que eu estava me preparando com esse propósito, mas, ao estudar línguas e fazer MBA, eu estava certamente abrindo as portas para que isto acontecesse.

A senhora se considera no topo? Tem ainda objetivos não alcançados?

Ana Paula Bógus: Quero ser feliz, não penso aonde mais posso chegar. Posso, lógico, fazer mais coisas, mas vou aonde eu estiver feliz. Não vou fazer nada só por carreira.

O que não pode faltar no perfil de um CEO?

Ana Paula Bógus: Saber trabalhar com gente. A prioridade é ter o talento de liderar, e isso se aprende. Tem que fazer liderança por inspiração, conseguir tirar o melhor das pessoas.

A senhora acha que o topo da carreira é mais solitário para as mulheres, já que, na maior parte das vezes, os pares são homens?

Ana Paula Bógus: Vou te contar um caso. Aqui no Chile, existe um grupo de networking de nove gerentes gerais (presidentes de empresa). Todos são homens, eles se encontram, tomam vinho. Eu não os conheço e pedi para que uma pessoa perguntasse se eu poderia entrar no grupo. Aí veio o recado que, a princípio, não entra mulher. Parece que é uma determinação das próprias esposas deles. Isso nunca tinha me acontecido antes. Mas acho que vou mudar isso.

Isso fez a senhora se sentir sozinha?

Ana Paula Bógus: Não porque busco outros caminhos. Tem que ter aliados pares dentro da empresa. Eu mantenho contato com outras pessoas aqui da Kimberly-Clark. Tinha um chefe na Nestlé que sempre dizia: aqui em cima venta muito. Então, é sempre bom escalar em par, trocar ideias, não pode se sentir sozinha.

Como é chegar com status de presidente de uma empresa em outro país? Tem muita diferença?

Ana Paula Bógus: Tem, na cultura. Já tinha estudado e estou vivenciando isso. A posição tem o benefício de você chegar em um cenário de conforto e segurança, casa montada, secretária que cuida dos pagamentos.

O desconforto é não falarem a verdade para você. As coisas não chegam até mim como elas são pelo fato de as pessoas me respeitarem muito. O desafio é criar o vínculo de confiança com a equipe. Mostrar para eles que sou expatriada mas estou aqui para viver com eles, para que sintam que eu estou me aprofundando na cultura do Chile, que quero entender quem eles são. Acho que quanto menos eu falar ‘ no Brasil é assim’, melhor.

Em entrevista à revista Você RH, no ano passado, a senhora disse que como diretora de RH nunca havia trabalhado tanto. Agora, como presidente, está trabalhando mais? Como é sua rotina?

Ana Paula Bógus: Estou trabalhando mais ainda. São cerca de 14 horas por dia. Entro no escritório umas 8h30 e fico até 19h30. Vou para casa fico com meu filho até umas 21h que é a hora que ele dorme. Janto com meu marido, converso com ele. Aí ligo o computador e volto a trabalhar, sigo até 0h, 1h. Mas é temporário, estou aqui há três meses, ainda estudando a dinâmica do dia a dia, os temas. Não vai ser para sempre.

Como tem feito para administrar o tempo de trabalho e da família?

Ana Paula Bógus: Pelo fato de ser expatriada, acho que é possível se agendar melhor, porque não tem tanta interferência externa. Quando a gente está no Brasil, tem a família e os amigos para dar atenção. E a gente aqui não, estou eu, meu marido, meu filho e babá dele que trouxe do Brasil. Aqui, eu ainda consigo fazer ginástica das 7h às 8h, duas vezes por semana.

Como foi o processo de expatriação? O que pesou na decisão?

Ana Paula Bógus: Quando o convite surgiu o assunto já estava digerido. As conversas em família começaram bem antes porque já havia um desconforto em relação a viver em São Paulo e criar uma criança, por conta da aceleração e da questão da segurança. Acho que quando é a mulher expatriada, é bem importante conversar isso muito bem casa, porque o homem precisa encontrar um papel nessa mudança e cabe à mulher ajudá-lo a encontrar.

Seu marido encontrou?

Ana Paula Bógus: Ele trabalhava em uma indústria de papel que fechou, era fotógrafo por hobbie e começou a fazer cursos profissionalizantes. Aí surgiu a meta de fazer um guia do Chile, além de me ajudar com nosso filho. É uma mudança de modelo familiar, a sociedade está mudando, cada vez mais a gente vê casos assim. Eu não estaria trabalhando se não soubesse que ele está com nosso filho.

Exame