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A integração vertical chinesa e o risco de compressão da demanda por celulose brasileira

Expansão da integração vertical e da base florestal na China reduz dependência de celulose importada e acende alerta para exportadores

A China já é o maior mercado de tissue do mundo, responsável por mais da metade da capacidade instalada global de aproximadamente 65 milhões de toneladas métricas. O que chama atenção crescente de analistas do setor, contudo, não é o tamanho desse mercado, mas a velocidade com que ele se reorganiza internamente: integração vertical acelerada, expansão da base florestal doméstica e redução sistemática da dependência de celulose de mercado importada. Para os grandes exportadores brasileiros de celulose, essa combinação configura um risco estrutural de médio prazo que começa a ganhar contornos quantificáveis.

Os dados mais recentes do setor revelam que a China adicionou 2,5 milhões de toneladas métricas de capacidade de tissue apenas nos últimos dois anos, com 145 novas máquinas construídas na Ásia desde 2022. Seis das nove máquinas avançadas de tissue instaladas na Ásia nesse período estão na China, todas comissionadas após 2022. Para Marcello Collares, Diretor de Inteligência de Mercado da TTOBMA, esse movimento não é acidental: o governo chinês tomou uma decisão política deliberada de reduzir a dependência de importações em setores estratégicos, e a indústria de papel e celulose está dentro dessa lógica.

A consequência direta sobre a cadeia de insumos é a que mais preocupa. Segundo Trip Jobe, VP de Vendas Globais da ResourceWise, a proporção de celulose importada no mix total de fibra consumida pela indústria chinesa de tissue está recuando e já se encontra em torno de 30%. “Essa porcentagem está diminuindo à medida que novas linhas de celulose entram em operação”, afirmou Jobe. “Isso vai continuar a declinar. As capacidades estão lá”. A tendência é relevante porque contraria a expectativa convencional de que o crescimento de máquinas de tissue na China alimentaria uma demanda proporcionalmente maior por celulose de mercado, o que não está ocorrendo.

O mecanismo por trás dessa dissociação entre crescimento de capacidade e importação de celulose é a integração vertical. Jobe documenta que o crescimento de fábricas de tissue verticalmente integradas com produção própria de fibra virgem aumentou quase 50% nos últimos quatro anos, acumulando 2,5 milhões de toneladas nesse segmento. As curvas de custo mostram que as novas plantas integradas asiáticas operam com custo de fibra como verde – custo próprio – enquanto as não integradas carregam o vermelho do custo de celulose comprada no mercado aberto. A competitividade estrutural das primeiras sobre as segundas é cada vez mais evidente, e o investimento chinês vai nessa direção.

O segundo vetor do movimento é florestal. Como parte de um planejamento de longo prazo, que Jobe descreve como um “plano de cinquenta anos”, a China tem expandido de forma acelerada sua base de plantio florestal doméstico. Embora parte dessa madeira seja direcionada para construção e móveis, a escala do investimento cria um ativo estratégico de negociação. “Se você tem a fonte, não precisa necessariamente ir direto para celulose e papel; isso lhe dá capacidade de negociar, dá poder para pensar em todas as suas indústrias”, explicou Jobe. O portfólio florestal inclui coníferas e espécies de pinho, além das folhosas tropicais, ampliando a flexibilidade de uso industrial.

Collares oferece o contexto macroeconômico que enquadra esse movimento. O crescimento líquido de celulose kraft de folhosa branqueada projeta cerca de 1,8 milhão de toneladas anuais para a próxima década, com todo o crescimento concentrado no lado da folhosa. A China, ao mesmo tempo em que expandiu sua capacidade interna de celulose em dezenas de milhões de toneladas nas últimas duas décadas, não conseguiu suprir a demanda endógena, o que até recentemente sustentava o fluxo de importações. O que os dados mais recentes sugerem, porém, é que esse gap está se fechando, e mais rapidamente do que o mercado antecipava.

Um dado de Jobe sintetiza a magnitude da mudança: com todo o crescimento de capacidade em máquinas de tissue registrado nos últimos anos, seria razoável esperar aumento proporcional nas importações de celulose de mercado para a China. Isso não aconteceu. “Essa curva está plana; não está caindo apenas um pouco. É por causa de sua integração, da fibra de madeira que chegou”, disse ele. A estagnação das importações em um cenário de expansão de capacidade é o sinal mais concreto de que a integração vertical e a base florestal doméstica estão funcionando como substitutos reais da celulose importada.

Para os grandes exportadores brasileiros de celulose – Suzano, Bracell e Klabin entre os principais – a implicação direta é a compressão progressiva de um dos seus maiores mercados de destino. A China absorve parcela significativa da celulose de eucalipto exportada pelo Brasil, e qualquer redução estrutural da dependência chinesa de celulose de mercado representa diminuição de volume e potencial pressão sobre preços. Jobe é direto ao formular o cenário de risco: “Quais são as implicações se alguém é um grande exportador para a China hoje e esse mercado se fecha? Para onde vão? América Latina, Europa?” A pergunta ainda não tem resposta definitiva, mas o sinal de que a trajetória de importação chinesa será decrescente, não crescente, já é suficientemente robusto para exigir revisão estratégica das empresas que construíram seus planos de expansão sobre a premissa de demanda chinesa crescente e relativamente previsível.

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