A importância da madeira e da massa na fabricação do papel: princípios técnicos e comerciais da qualidade no papel higiênico
Por Graziele Franca, gerente de Qualidade da Bracell Papéis Nordeste
No universo tissue, especialmente na produção de papel higiênico, a qualidade percebida pelo consumidor começa muito antes do processo de conversão. Ela tem origem na matéria-prima base: a madeira — fonte das fibras celulósicas que compõem a massa do papel.
Madeiras como eucalipto (fibras curtas) e pinus (fibras longas) são cultivadas em larga escala no Brasil e fornecem as características estruturais que definem a performance do papel. O equilíbrio entre resistência, maciez e absorção é, portanto, diretamente influenciado pela escolha da madeira e pelo processo de produção da massa.
MASSA CELULÓSICA: O DNA DO PAPEL TISSUE
Do ponto de vista técnico, existem três principais tipos de massa utilizados na produção de papel tissue:
- Massa Celulósica Virgem
- Produzida a partir de madeira de reflorestamento;
- Oferece uniformidade de fibra, alta pureza, excelente performance em processos modernos;
- Ideal para produtos premium, onde se busca alta maciez, brancura e resistência úmida.
- Massa Reciclada
- Proveniente de aparas industriais ou papéis pós-consumo;
- Custo mais acessível, mas com maior variabilidade de qualidade;
- Usada principalmente em linhas econômicas ou institucionais.
- Massa Mista (Blend)
- Combina fibras virgens e recicladas em proporções específicas;
- Estratégia comum em marcas intermediárias, que buscam equilibrar custo e desempenho.
A escolha entre esses tipos de massa é estratégica, pois impacta não só a performance do papel, mas também posicionamento de mercado, percepção do consumidor e margens de lucro.
ASPECTOS TÉCNICOS: PILARES DA QUALIDADE NO PAPEL HIGIÊNICO
A qualidade técnica do papel higiênico é resultado direto de decisões sobre matéria-prima, configuração de fibras, processos de refino, secagem e conversão. A seguir, os principais atributos técnicos:
| Maciez | Determinada por refino, tipo de fibra, estrutura da folha e presença de aditivos. | Fator decisivo na escolha do consumidor. Alta correlação com percepção premium. |
| Resistência | Influenciada pela proporção de fibras longas e curtas e tipo de ligação entre fibras. | Evita rupturas e melhora a experiência do usuário. |
| Absorção | Relacionada à porosidade e ao tipo de embossing aplicado. | Fundamental em papéis úmidos e multifuncionais. |
| Bulk (volume) | Medida da espessura por gramatura; contribui para sensação de “fofura”. | Contribui para percepção de valor, especialmente em rolos folha dupla ou tripla. |
| Brancura | Depende do branqueamento da celulose e adição de pigmentos ópticos. | Transmite higiene, limpeza e qualidade. |
TENDÊNCIAS E INOVAÇÕES NO USO DA MASSA
Com a crescente demanda por sustentabilidade e eficiência, o mercado tissue está adotando tecnologias que otimizam o uso da massa celulósica, sem comprometer a qualidade:
- Uso de enzimas e aditivos químicos que aumentam a maciez com menor consumo de energia;
- Processos de refino controlado, que preservam fibras e reduzem desgaste de equipamentos;
- Desenvolvimento de fibras alternativas, como bambu ou cana-de-açúcar, com apelo ecológico;
- Sistemas de reconversão e reaproveitamento de aparas, fechando o ciclo de produção.
A ÓTICA COMERCIAL: CUSTO X VALOR PERCEBIDO
A composição da massa tem impacto direto no custo de produção, mas também no valor percebido pelo cliente final. Por isso, decisões técnicas precisam estar alinhadas com a estratégia comercial da marca.
Exemplos:
- Produtos super premium exigem maior uso de massa virgem, refinamento técnico e marketing voltado ao conforto;
- Linhas econômicas se beneficiam de blends otimizados, foco em eficiência e distribuição em canais de alto giro;
- Setores institucionais (AFH) priorizam resistência, custo e rendimento por metro quadrado.
Além disso, a massa impacta a logística (peso, volume), o tempo de conversão e o desempenho do papel na máquina, influenciando desde o planejamento industrial até o ponto de venda.
SUSTENTABILIDADE: DA MATÉRIA-PRIMA À MARCA
A origem da madeira e o tipo de massa também se tornaram elementos de valor para o consumidor moderno. Cada vez mais, o mercado exige:
- Certificações como FSC® e PEFC, que garantem manejo florestal responsável;
- Produtos livres de cloro (ECF ou TCF);
- Comunicação transparente sobre pegada de carbono, uso de água e reaproveitamento de resíduos.
A sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial e passou a ser uma exigência do mercado — inclusive nos segmentos de papel higiênico.
A madeira e a massa celulósica são muito mais do que matéria-prima. São componentes estratégicos que definem a identidade, performance e valor de mercado do papel higiênico.
No setor tissue, entender as implicações técnicas da massa é essencial para inovar com responsabilidade, competir com inteligência e crescer com sustentabilidade. Da floresta à prateleira, cada decisão conta — e começa na fibra.
No próximo artigo, entraremos com mais detalhes no Controle de Qualidade e Requisitos regulatórios. Fiquem de olho.

















