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CEO da Renova concede entrevista exclusiva para revista em Portugal

Nesta última sexta-feira (11), Paulo Pereira da Silva – CEO da Renova, concedeu uma entrevista exclusiva para a revista portuguesa PME Magazine! 

Paulo Pereira da Silva entrou para a Renova com 34 anos e rapidamente chegou a CEO, cargo que ainda diz estar “experimentando”. Ele ainda trouxe grande inovação e manteve viva uma marca histórica e bem conhecida dos portugueses. O céu é o limite e a criatividade é aquilo que o faz todos os dias seguir o caminho de uma marca que emprega mais de 620 pessoas e exporta para cerca de 70 países.

Confira a seguir a entrevista completa:

PME Magazine – De onde vem a sua criatividade?

Paulo Pereira da Silva – Vem da minha curiosidade do mundo, acho. Eu sempre fui muito curioso em relação ao mundo e as coisas e tenho uma enorme vontade de aprender, de conhecer ideias novas, conhecer pessoas novas, acho que vem muito daí.

PME Mag. – Depois de se formar em Engenharia Física, como é que surgiu esta oportunidade na Renova?

Paulo P. da Silva – Não sei [risos], até hoje me pergunto. Eu me formei em engenharia física na Suíça e sempre pensei que queria ter uma carreira acadêmica na área da física teórica, física quântica, que é muito diferente de fabricar papel higiênico. Quando terminei o meu curso não tinha concluído o processo do serviço militar ainda, e enquanto estive à espera de ser incorporado, ou não, resolvi fazer uma experiência na Renova, uma empresa à qual eu estava ligado familiarmente e onde o presidente do Conselho de Administração me convidou para participar dessa experiência e eu fui. Acredito que mesmo depois de 34 anos, ainda estou realizando essa experiência…

PME Mag. – Então, como é que chegou a CEO ?

Paulo P. da Silva – Acho que não sou uma boa pessoa para responder a essa pergunta, porque todo o meu trajeto até aqui foi uma grande surpresa. Comecei como engenheiro, depois a assistente de um diretor de uma das áreas da Renova e em seguida passei ao cargo de diretor de produção, diretor fabril, entrei no Conselho de Administração, e ainda muito novo, tinha apenas 34 anos, de alguma forma, quando me dei por conta tinha sido eleito presidente do Conselho de Administração da Renova. Foi assim, sempre tentando fazer o melhor possível e tentando sempre acreditar nas pessoas que estavam à minha volta. O que mais gosto de fazer na vida é trabalhar com pessoas. Gosto muito de realizar mentoring, coaching, para que mais tarde possa eleger pessoas que possuam um talento grande e aproveitar as diferentes competências de cada um, colocá-las a dominar suas próprias competências é uma coisa que gosto muito. Sempre tentando fazer o bem, não é fácil, mas sempre mantive um espírito positivo, anunciando objetivos, depois tentando implementá-los na realidade, e assim as coisas foram acontecendo.

Antes e depois do papel preto

PME Mag. – O papel higiênico preto foi o passo que a Renova precisou dar para se reinventar?

Paulo P. da Silva – Acredito que a Renova ao longo da história sempre se reinventou. Estamos aqui numa fábrica, junto à nascente do rio Almonda, que era uma fábrica de papel plano e que a partir dos anos 60, começou a fabricar o papel higiênico e produtos de bens de consumo. Foi uma inovação, uma reinvenção brutal para uma empresa de papel plano, e este mercado era um mercado pequeno, de produtos de usar e jogar fora. E foi em 1960, que houve uma enorme reinvenção da Renova, isso está no seu próprio nome, Renova, sempre gosto enfatizar isso. As pessoas que estavam nessa altura deram um passo enorme ao entrarem nesse mercado. O papel higiênico preto aparece numa fase seguinte em uma fase nossa de internacionalização, porque, de fato, mudou a percepção do produto. O relacionamento das pessoas com o produto mudou, isso trouxe-nos legitimidade em toda a indústria. Dessa forma, há um antes e depois que não tem muito a ver com o lado interno, dentro da Renova, mas que tem a ver com a perceção da marca para o exterior. Antes de existir o papel higiênico preto, se olharmos uma potencial cliente na Espanha, essa diria: “A Renova existe em Portugal desde 1939, era uma empresa de papel e mudou para este tipo de produtos e é líder desde então…”. Hoje em dia, se chegarmos a um potencial cliente na China, como estive em Xangai, digo: “Olhe, nós somos os do papel higiênico preto”. E não é preciso dizer mais nada. Portanto, fomos nós que o inventamos e é ai que há uma mudança e acredito que isso se chama ter legitimidade na indústria. De fato, do ponto de vista internacional e do ponto de vista exterior, essa mudança foi muito grande, ou como estrutura a partir da qual é possível internacionalizar a marca. Porque tudo o que fazemos não é meramente vender átomos e fibras de papel, é vender uma marca. E uma marca é a coisa mais importante do que propriamente só os átomos e só as fibras que fazem o papel. Se conseguirmos, de alguma forma, criar alguma afetividade, ou alguma relação dos cidadãos com uma marca, consigo ter muito mais projeção e consigo ter muito mais negócio, relação com as pessoas, ao longo do tempo e não só num produto que não tem marca. Portanto, todo o nosso desenvolvimento na Renova foi decidido ser feito a partir da marca, de fazer a nossa própria marca. Em todos os países onde estamos fora daqui, estamos deixando a nossa marca, o que é extremamente gratificante. Se alguém que está no Cazaquistão manda uma foto do supermercado onde ela está e lá tem um rolo da Renova para nós é grande orgulho, porque foi feito aqui, em Torres Novas, junto da nascente do rio Almonda. Para isso, a base de tudo foi o papel higiênico preto e esta mudança da perceção. Depois, não é que seja esse o produto que vai vender mais, mas é esse que dá a notoriedade à marca.

PME Mag. – Quantas pessoas trabalham diariamente no departamento de criação da Renova?

Paulo P. da Silva – Eu não sei se nós temos um departamento de criação. Eu diria que nesse departamento trabalham todas as pessoas que trabalham na Renova, arrisco dizer que são 650 e mais todos os fãs da Renova, o que chegaria nos milhões! Acho que a criatividade vem muito da relação das pessoas e cada vez  mais das redes de pessoas, fãs da marca, que estão fora da empresa, ou que estão dentro e que trazem ideias. Essas ideias, o que é que podem ser? Acho que, no fundo, são pequenas luzinhas que aparecem e, a partir das quais, nós podemos construir. O que temos de ter é capacidade de atrair essas ideias e nunca as censurar. Essas ideias podem ser fornecedoras, podem ser as nossas pessoas, podem ser empresas, universidades e até mesmos ser os fãs da Renova no mundo todo, que nos mandam coisas e ideias e, às vezes, utilizações do produto de forma diferente. Portanto, se me perguntar, o departamento criativo são as pessoas da Renova, mais os fãs da Renova. A quem dou uma importância enorme. E chamo fãs a todas as pessoas que estão ligadas à marca, de uma forma ou de outra, por uma relação, diria, emocional.

“Criatividade está na informalidade”

PME Mag. – Qual é o processo para a criação de um novo produto?

Paulo P. da Silva – Eu não tenho um método para criar um novo produto, porque são muitos. Um novo produto pode vir de um investimento enorme da empresa, uma nova linha de produção, uma nova máquina que permite fazer um papel dito estruturado, que nós chamamos internamente de 4D. É um investimento de milhões de euros, que implica estudos durante muito tempo sobre o produto, de trabalho com os fabricantes das máquinas, é  um processo muito demorado até chegar a um equipamento que possa fazer aquele produto. É um processo longo e com muitos intervenientes. Ou pode ser uma coisa extremamente diferente, que pode ser uma ideia de uma cor dentro do produto. E aí pode ser qualquer pessoa que nos dá essa ideia. Portanto, acho que muito da criatividade, às vezes, está em alguma informalidade no desenvolvimento das ideias. Depois, a escolha de avançar e seguir com as ideias para implementar, ou não, já entra dentro de um processo mais estruturado, mas a princípio às vezes é muito mais importante ter as ideias, deliberadamente, não estruturada e assim atrair as ideias que existem nos fãs em geral. Depois decidimos: vamos fazer isto. Então, aí, já entra um diretor de projeto, trabalhar com as pessoas que é necessário trabalhar, cada vez mais de uma forma co-criativa. Posso dar-lhe um exemplo: um dos últimos produtos que lançamos foi uma embalagem para papel higiênico e rolos de cozinha. Quisemos fabricá-lo de uma maneira muito rápida, conseguir fazê-lo de maneira muito rápida é conseguir ter um fornecedor que me fizesse esse papel no mesmo ritmo. Foi necessário, ao mesmo tempo, estar a trabalhar com o nosso fornecedor de embalagem de papel, com o nosso fabricante de equipamentos de embalar os produtos, com o fornecedor de papel do nosso fornecedor que o imprime, com um instituto na França, de investigação, em relação ao papel e como é que eu poderia ter um papel que tivesse as características certas para trabalhar. A rapidez, hoje em dia, na capacidade de criar produtos novos está em um sistema muito aberto e de ser capaz de trabalhar em não sei quantos pontos do mundo, com equipes diferentes e ao mesmo tempo. Portanto, implica muita capacidade de juntar ideias, juntar processos e ser capaz de o produzir com grande agilidade. Hoje, há cada vez mais pessoas, cada vez mais quadros que têm essa capacidade, possuem um enorme talento. São pessoas diferentes, se calhar, do que eram as pessoas da minha geração, que estavam fechadas num laboratório, aqui dentro, oito horas por dia, tentando fazer as coisas, muito compartimentadas entre diferentes áreas da empresa: o que era marketing, o que era a produção, o que eram os fornecedores e, hoje, é preciso muito mais interferência em todas as áreas para conseguir ter rapidez em fazer as coisas. Chamo isso de tentar ter uma estrutura de startup. Gosto muito de visitar startups, às vezes estou com pessoas mais novas, posso dizer pequenos, brilhantes! Quando falo com eles e vejo os olhos brilharem quando conhecem os projetos de forma geral, sabem sobre as vendas, sabem tudo da empresa deles e qualquer um deles é capaz de explicar com a maior tranquilidade e com o maior amor pelo que estão fazendo e o que é que estão se propondo a fazer mesmo que de alguma maneira ainda não estão a fazer e que, às vezes, é uma ideia. Acho que, na nossa dimensão, que do ponto de vista global é muito pequena, temos de trabalhar da mesma forma, trabalhar muito mais em equipe, trabalhar de forma muito mais, diria, desestruturada em tudo o que é este backoffice, antes mesmo de chegar aos produtos e depois muito ordenado a fabricá-los e com muita competitividade, com todos os aspectos industriais. Acho que os espaços são muito importantes. Este espaço que está aqui é uma coisa muito importante, exatamente para não ter paredes, nem muros e para as pessoas poderem interferir umas com as outras. Temos aqui misturadas pessoas de todas as áreas: marketing com contabilidade, compras, vendas e, para mim, é muito interessante ter as pessoas todas juntas e não ter as pessoas compartimentadas e cada uma com o seu espaço e com o seu pequeno poder, mas, sim, toda a gente a fazer parte da mesma estrutura e do mesmo objetivo, que é desenvolver a marca.

PME Mag. – Isto se aplica também às campanhas de marketing?

Paulo P. da Silva – Acho que a criatividade das campanhas também se aplica assim. Normalmente, há ideias que aparecem aqui dentro, de uma maneira ou de outra. Depois, a realização delas, às vezes, é feita com parceiros diferentes em diferentes lugares do mundo. Estamos a investir cada vez mais na área digital, para as nossas campanhas. Não é a totalidade, continuamos a fazer divulgações em jornais, enfim, como estou aqui a falar contigo, mas cada vez mais introduzidos na área digital. E, às vezes, gosto muito de trabalhar com gente mais nova e cheia de ideias e de maneira, também, desestruturada. Temos alguns fornecedores, parceiros nomeadamente, que são pequenas empresas e que estão a fazer um trabalho que acho excelente para nós nessa área. Uma delas o dono é um jogador de rugby, da equipe francesa de rugby do irmão, trabalham com três ou quatro marcas de luxo na França e acho que fazem um trabalho muito engraçado. Trabalham conosco e eu cheguei lá porque gosto muito do trabalho que eles fazem. E acho muito importante. Eu aprendi muito a ler. Vivi em Abrantes, isolado do mundo, não havia internet na época, aprendi muito com os livros, naquilo que li sobre a vida, sobre o mundo aprendi muito nos livros. E, hoje em dia, os meus clássicos são o Instagram das pessoas novas, onde passo muito tempo vendo como é que as pessoas se comunicam. É um mundo que eu desconheço totalmente, ou melhor, que não conheço bem e que não comunica da mesma forma que e comunico. Aprendo muito e tenho uma paixão, uma curiosidade enorme demais pelo Instagram do que pelo Facebook de pessoas mais novas, no mundo inteiro, de ver como é que eles se comunicam. Na China, passei muito tempo observando isso, é um país onde não posso ler, não sou capaz de ler, o Instagram fala através das imagens, acredito que isso está cada vez mais importante em nossas vidas e também em nosso negócio, a comunicação rápida através de uma imagem.

PME Mag. – Em 2017, o Metrô de Paris censurou a campanha da Renova. Como você reage às críticas à irreverência da marca?

Paulo P. da Silva – Eu acho que as pessoas têm todo o direito de ter opiniões sobre tudo e acho, até, muito interessante essa liberdade de comentar sobre as coisas. Devo dizer-lhe: no meu interior, se eu fizer uma campanha que é agressiva e que eu acho que é agressiva por uma coisa qualquer ficaria relativamente preocupado. Sempre teremos pessoas que vão gostar e outras não, mas aquilo que eu tenho mais, mais, mais receio é que sejam indiferentes, porque se forem indiferentes não a veem e isso não me interessa para nada. Portanto, pelo fato de ser irreverente e de haver um comentário, pelo menos acredito que as pessoas viram e comentaram e  assim fizeram com que a marca existisse, porque ela interfere com os cidadãos. Essa campanha, no Metrô de Paris, foi bem engraçado, porque, na França, ela também existe nas estradas, em outdoors, nos prédios e é um ombro de um homem com uma tatuagem, portanto, não consigo perceber qual é o problema que isso possa ter. É verdade que o papel higiênico é um produto difícil, porque quando fazemos uma comunicação qualquer produto, se for um perfume, passa perfeitamente. Agora, se for papel higiênico, as pessoas, por alguma censura que existe, vão ficar mais chocadas, vão ficar a ver mais, ou fazer um sorriso… Se for um produto cosmético, ou um perfume, isso não acontece. Isso às vezes também me desagrada, porque temos centenas de pessoas de uma indústria que é perfeitamente espetacular e que implica fazer as próprias fibras da pasta, que nós não fazemos. Depois, fazer o papel, transformá-lo… É uma indústria, diria, brutal, enorme! Com uma grande quantidade de pessoas trabalhando, se empenhando para fazer um produto que tenha um custo que é muito baixo por quilo e, depois, ao mesmo tempo, ser muitíssimo pouco valorizado pelas pessoas e ter esses sorrisos com uma coisa qualquer. E fico contente com o papel higiênico preto, com esta mudança da relação com o produto, por achar que, se calhar, já, já estaremos marcando um caminho e a fazer com que as pessoas, de alguma forma, respeitem mais o produto que estamos a fabricando, que merece esse respeito, porque é o trabalho de muitas pessoas e o esforço diário de cada uma, que merece ser valorizado, porque é mesmo fazer papel. A fabricação do papel é algo,  que particularmente eu acho, lindíssima [sorri]!

PME Mag. – Você tem medo que a Renova seja associada apenas a uma marca de luxo?

Paulo P. da Silva – Acho que a Renova, como marca, é percepcionada de maneira muito diferente em diferentes mercados. Em Portugal, provavelmente, é uma marca histórica. Lembro-me de termos feito um estudo nos anos 80 que dizia que era a marca das minhas avós, hoje já é capaz de aparecer como marca mais jovem e de luxo e um bocadinho diferente. Acho que, em Portugal, tem um pouquinho de todas as áreas. A Renova tem produtos que cumprem as necessidades básicas das pessoas com uma relação qualidade/preço que acredito que seja a melhor que há, dentro da nossa marca, e depois tem produtos mais luxuosos, cujo objetivo já não é tanto o cumprir a necessidade básica, mas já pode ter que ver muito mais com lifestyle, com a decoração da casa de banho, como vemos em outras marcas de luxo. Em Portugal, nós temos produtos de luxo, produtos premium, ou produtos normais que têm uma relação muito interessante com a qualidade/preço. Agora falando de um mercado onde estamos há muito pouco tempo, por exemplo, a Coreia do Sul: na Coreia do Sul vendemos pouco e praticamente só lenços de cores e com perfumes e os lenços da Renova na Coreia do Sul são percepcionados como marca de luxo, como um produto europeu de muita qualidade, quase como se fosse um perfume. E está bem. Foi isso que foi pretendido aí, porque se eu entrasse como uma marca normal não existiria na Coreia, porque, obviamente, essa categoria de produto, esse nível de produto está perfeitamente preenchido e nós não poderíamos ser concorrentes a partir daqui, mas começar como um produto muito diferenciado para nós é muito importante, exatamente para este desenvolvimento da Renova como marca, diria que isso é mesmo essencial. Como todas as marcas que estão sempre a lançar coisas novas e a tentar diferenciar-se e ter produtos diferentes. Apesar de ser papel higiênico, não sei porque é que não pode ser um produto engraçado, fun e de decoração como todos os outros. Não tem de ser um produto envergonhado, é uma coisa que tem que ver com a minha vida [risos]. Quando vim da física e comecei a trabalhar na Renova e dizia aos meus colegas que fazia papel higiênico todos riam pelo menos um pouco. Pronto, é assim, mas, acredito que hoje em dia isso já está um pouco diferente.

PME Mag. – Sente o peso dessa responsabilidade, sendo um dos grandes empregadores de Torres Novas?

Paulo P. da Silva – Diria que sinto a responsabilidade em relação a toda gente, ligada à Renova direta ou indiretamente. São as pessoas que trabalham aqui, as que estão em trabalho na França, os acionistas da Renova, os nossos fornecedores, são, no limite, os cidadãos em geral com todos os produtos que nós fazemos, se estão bem feitos… Temos toda uma política, que eu não gosto de chamar ambiental, mas gosto de falar mais de harmonia em relação à natureza, à reutilização das coisas, portanto, há todo um caminho que nunca está percorrido, é um desafio que tem de se fazer diariamente. Sinto imensa pressão, mas isso é a minha vida. É tentar, com algum bom senso, conseguir os compromissos entre todos os interesses de todas as pessoas, os meus clientes, meus acionistas e todas as pessoas que trabalham aqui e, deixe-me dizer, isto tem de estar bem equilibrado, porque se um destes stakeholders, como se diz, tem um peso muito maior do que os outros vai correr mal. É uma vida num equilíbrio. Ainda acrescento mais, porque nós somos uma marca que existe, como marca, desde 1818, o ano em que o Congresso americano decidiu as estrelas e as riscas na bandeira. São muitos anos de marca. E também sinto grande responsabilidade em relação a todas as pessoas que fizeram a marca, que já são mais de centenas de anos. E todas as pessoas que deram a vida por isso, que investiram, no passado, no passado mais recente, que merecem que haja a continuação dessa herança, é uma marca que liga muita gente. Acho que, cada vez mais, esse é um aspeto importante. Estive na China e estava a ver as marcas que estavam a falar e acho que esse aspeto de longevidade de uma marca e de conseguir existir ao longo de muito tempo é um valor até de um ponto de vista comercial. Portanto, também é importante ter o cuidado com a própria história e com o futuro.

PME Mag. – Quando é que a Renova vai se livrar do plástico?

Paulo P. da Silva – Não sei quando é que podemos ser totalmente livres do plástico. Gostaria de avançar mais depressa do que se já está se avançando. Lançamos alguns produtos e, felizmente, não podemos obrigar os cidadãos a escolherem estes produtos e outros não. Em alguns dos nossos produtos tecnicamente ainda não é possível tirar tudo, mas é possível reutilizar. Em outros era possível avançar com mais agilidade e eu gostava de andar com mais velocidade, mas só posso ir à medida que as pessoas que compram os produtos também os comparem, se eu fizer os produtos e não os vender tenho essa responsabilidade toda das pessoas que trabalham aqui, mas estamos preparados para ir com mais velocidade. Como sabe, aqui, tenho os meus primeiros clientes, que são as cadeias de distribuição, depois tenho o cidadão, portanto, tenho de ter os dois a aceitarem esta mudança. E muitas vezes não é fácil, acho que é algo que vai demorar um tempo, mas acredito que, muito rapidamente, esse assunto vai ficar resolvido. Aí, sou extremamente otimista, se calhar não sou tanto em relação ao aquecimento global, que é uma questão muitíssima mais complexa, mas essa questão do plástico está muito mais em nossa responsabilidade de ajudar a mudar e acho que vai avançar depressa na globalidade. Sou um mergulhador e todas minhas férias passo a mergulhar, portanto, sou particularmente sensível a esse aspecto.

PME Mag. – Há algum produto novo que possa revelar?

Paulo P. da Silva – Não lhe posso dizer, mas vou falar o seguinte: a coisa mais importante, para nós, neste momento é algum desenvolvimento geográfico da Renova em novos países. Quando estamos em novos países, porventura, precisamos de produtos um bocadinho diferentes, ou produtos, se calhar, mais premium, mais luxuosos. Uma área que estamos desenvolvendo muito é a personalização. Temos o “Made by you”, em que se pode fazer upload das fotografias e nós enviamos, para qualquer lugar do mundo, guardanapos com as fotografias das pessoas, ou papel higiênico. Portanto, avançaremos muito nessa área de personalização dos produtos, porque acho que é uma coisa muito interessante para as pessoas terem liberdade de escolherem os seus próprios produtos. Como tendência um bocadinho do mundo – acho que está um pouco ligado a mudança das pessoas para as cidades – estamos em presença de uma certa desmaterialização das casas das pessoas. As pessoas têm menos coisas em casa, menos móveis. Tendo menos coisas, vão querer consumir menos átomos, menos quantidade de coisas, mas querem coisas mais engraçadas e ter prazer com coisas, diria, mais simples. Gosto muito de tornar em coisas extraordinárias coisas que são ordinárias, do dia-a-dia, portanto, a pessoa poder consumir menos, mas consumir com um sorriso, bem disposta, ter menos coisas mas ter uma vida mais light, mais de acordo com todo este problema do mundo e da escassez de recursos no mundo em que vivemos.

PME Mag. – Como você avalia o grau de criatividade das empresas em Portugal?

Paulo P. da Silva – É difícil estar aqui a falar da criatividade das empresas em Portugal. Deixe-me pôr do outro lado: eu falo muito em universidades e tenho muito contato com pessoas mais novas em Portugal, acompanho muitos perfis no Instagram e acho que nunca vi tanto talento. Nunca vi tanto talento e, às vezes, fico mesmo contente, babado, com um bocadinho de ciúmes de não ter essa idade. Acho que, às vezes, falta em Portugal capacidade de as pessoas se arriscarem e de criarem a sua própria empresa. Às vezes, quando se fala da criatividade das empresas, eu não falo tanto das empresas instaladas, em geral, porque não é esse o problema, mas o que me falta é ver muito mais startups, muito mais gente que esteja a meio do curso e que comece a fazer um negócio e que comece a fazer coisas. Eu ando muito em Lisboa, no Porto e sou capaz de ver imensas lojas, restaurantes, coisas fantásticas feitas por gente nova, às vezes sem muitos recursos, mas de uma criatividade enorme. É nítido que o ambiente em que vivíamos mudou. Acho que isso devia trazer-se também para as empresas tecnológicas e acho que nos faltam um pouco esses desafios. Ou seja, se calhar, as nossas faculdades de engenheiros não estivessem só a formar técnicos para as muito grandes multinacionais, que é bom que o façam, mas alguns deveriam fazer a sua própria empresa, porque depois o valor criado é maior e acho que ainda nos falta isso. Está muito melhor do que estava há 10 ou 15 anos atrás, os Web Summits e essas coisas têm feito essa mudança, mas acho que ainda há muito trabalho para se fazer e tem muito há ver com a capacidade de arriscar, de uma pessoa nova arriscar, de não ser penalizado ou penalizada pelo falhar, porque, às vezes, as pessoas quando arriscam falham, mas isso não é um problema. Só não falha quem não arrisca e, portanto, essa criatividade aplicada no mundo real e nos negócios, comparada com o talento que eu acho que nós temos, há aqui um gap que é preciso mudar.

PME Mag. – Como vê a Renova daqui a cinco anos?

Paulo P. da Silva – Se tiver de responder rapidamente diria: “Não sei”. Não sei. Cinco anos é amanhã, mas a vejo como uma marca com uma grande expressão global, se estabelecendo em outros países, mercados, geografias, dentro dos seus próprios valores, do seu território, da sua linguagem e com um grande crescimento geográfico, podendo levar a nossa marca, aquilo que somos a mais pessoas, em diferentes lugares do mundo. Gostei de ver que na China as pessoas cheiram os nossos produtos, tocam nos produtos. Se calhar, há aqui mercado em que podemos trabalhar. O outro lado desta questão tem muito que ver com os avanços tecnológicos. O mundo está avançando muito. O Facebook, o Instagram são ferramentas relativamente recentes e tenho de ter a humildade de dizer que dentro de cinco anos poderá existir um instrumento tecnológico – certamente no comércio digital, ligado ao digital de todas as vendas de internet, tudo isso avançará muito, os pagamentos todos vão ser diferentes e tudo isso vai ter implicações nos nossos negócios. O próprio protecionismo que começa a haver, não só nos Estados Unidos, vai afetar a capacidade de estar em outros lugares. O importante é ter uma estratégia de desenvolvimento e depois deixar aqui alguma capacidade de adaptação às oportunidades que vão existir. Temos uma indústria na França, portanto, continuaremos a desenvolver a Renova lá, seguiremos a desenvolvê-la aqui do ponto de vista industrial, ter a nossa marca espalhada pelo mundo e, se tivesse como demonstrar o que eu eu mais queria, com certeza seria que a Renova fosse a marca mais amada no mundo.


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