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Celulose: Preços não compensam, alertam executivos

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Dirigentes das maiores produtoras brasileiras de celulose avaliam que há demanda crescente pela matéria-prima, porém acreditam que os atuais níveis de preço da fibra curta não remuneram o acionista de maneira adequada e tampouco correspondem à nova estrutura de custos da indústria. Em painel promovido pela consultoria RISI em São Paulo, como parte do 9º Congresso Anual Latino-Americano de Celulose e Papel, os representantes da indústria voltaram a falar sobre a necessidade de disciplina na colocação de capacidades adicionais e da mudança nos parâmetros do mercado, como o de estoques, diante da concentração da produção da fibra na América do Sul.

O presidente da Suzano Papel e Celulose, Walter Schalka, voltou a chamar a atenção para o impacto negativo que os preços têm sobre o retorno aos acionistas. “Estamos muito satisfeitos com o [desempenho na nova fábrica de celulose do] Maranhão. Mas estamos bastante insatisfeitos com os preços da celulose”, afirmou.

Conforme o executivo, os valores atuais – cerca de US$ 730 por tonelada na Europa e menos de US$ 590 por tonelada na China – não são adequados. “Esse preço não remunera adequadamente o capital empregado de todos os representantes do setor, apesar da competitividade do país e dos esforços para buscar ainda mais competitividade”, destacou.

Schalka voltou a comentar também sobre a possibilidade de a Suzano reduzir volumes de produção para elevar a rentabilidade – no negócio de papel, a companhia já lançou mão dessa iniciativa no passado.

Para o presidente da Fibria, Marcelo Castelli, porém, os preços da celulose de fibra curta já chegaram ao fundo do poço. “A precificação das novas capacidades acontece antes de elas chegarem ao mercado”, disse o executivo, referindo-se ao recente início de operação da nova fábrica da Suzano e de Montes del Plata, joint venture entre Stora Enso e Arauco no Uruguai. “O preço já chegou no fundo do poço. A estrutura de custos da indústria subiu. Acho que ninguém no setor está com um gosto doce na boca”, afirmou.

Na avaliação de Castelli, a tendência de substituição da fibra longa por fibra curta ainda não acabou e não é mais correto avaliar a dinâmica do mercado somente pelos níveis de estoques. “Os estoques vão subir, pelo simples motivo de que novas capacidades estão na América do Sul e os mercados principais, na Ásia e no Hemisfério Norte. Então, os estoques estruturais vão aumentar, com ciclos mais longos”, afirmou.

Já o diretor-presidente da Klabin, Fabio Schvartsman, afirmou que a diferença de preços de cerca de US$ 200 por tonelada entre a celulose de fibra curta (mais barata) e a fibra longa não é sustentável. “Essa diferença vai se reduzir, porque é um tremendo incentivo para o consumo de fibra curta”, explicou. Para o executivo, a celulose “fluff”, que também será produzida pela companhia em sua nova fábrica e é usada em fraldas descartáveis, deve manter o prêmio em relação aos demais tipos de fibra. “O Brasil importa cerca de 400 mil toneladas de fibra longa e fluff [por ano] e, pela primeira vez, haverá oferta local desse volume. É natural que ao longo do tempo haverá encontro entre nossa capacidade e a demanda do mercado”, disse.

Para o presidente da Eldorado Brasil, José Carlos Grubisich, a visão sobre o setor é “positiva”. “Achamos que o mercado cresce, tem dinamismo. Fazemos hoje 18 meses de operação que reforçam essa percepção”, contou. Conforme o executivo, a primeira fábrica da companhia já opera a 110% da capacidade nominal – o que permite a produção de 1,7 milhão de toneladas por ano.

“Passamos pelo nosso primeiro desafio, que era mostrar que podia produzir com competitividade”, acrescentou. A Eldorado planeja agora uma segunda linha de produção em Três Lagoas (MS), com capacidade inicial para 2 milhões de toneladas por ano e início de operação projetado para 2017.

Na avaliação de Castelli, da Fibria, um novo projeto de celulose deve apresentar retorno esperado de 3% a 4% sobre o custo médio ponderado de capital (WACC, na sigla em inglês) para ser levado adiante pela companhia. Esse também é o retorno esperado, portanto, para o projeto de expansão da Fibria em Três Lagoas, caso a decisão seja a de seguir em frente com o investimento. “Nossa visão sobre o mercado é que há espaço para todos, mas tem de haver um pouco mais de disciplina no todo. [O setor] não tem conseguido de fato ter essa disciplina”, afirmou.

Castelli lembrou que o retorno dos projetos de celulose é mais longo que o de um projeto de infraestrutura e os cinco primeiros anos são fundamentais para a sobrevivência da operação. “Achamos que pode haver uma janela [para uma nova fábrica] no fim de 2016, início de 2017, e estamos tentando nos posicionar para isso”, reafirmou. Contudo, o executivo lembrou que a indústria é “extremamente fragmentada, necessitando de consolidação”. “Não é só aqui. É no mercado como um todo”, disse.

Conforme Castelli, embora mantenha os planos de expansão em Três Lagoas, que elevaria das atuais 1,3 milhão de toneladas por ano para 3 milhões de toneladas anuais a capacidade instalada naquela fábrica, a Fibria “não tem pressa em puxar o gatilho do projeto”.

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Valor Econômico