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Alta de custos e crise econômica prejudicam o mercado de papel tissue

O disparo de preços de matérias-primas, aliado aos desafios da pandemia, aumentou os custos de produção, diminuiu as margens e tornou muitos negócios insustentáveis

O mercado de tissue vem sofrendo uma grave crise em todo o mundo neste ano. A alta de preços dos insumos, em especial, a celulose, vem dificultando que as empresas repassem os custos e mantenham suas margens saudáveis. No Brasil, o cenário é ainda pior: a alta do dólar, aliada ao teto máximo do indexador da celulose, aumentou os custos de produção e tornou muitos negócios insustentáveis.

Segundo o IBGE, o preço do papel higiênico teve crescimento de 5,3% em setembro, o que, ainda assim, é insustentável para que os fabricantes e convertedores preservem a lucratividade dos negócios e possam atender às demandas do mercado – tanto no segmento de consumo quanto no institucional.

O Portal Tissue Online conversou com quatro executivos de grandes players do mercado – Luciana Dobuchak, diretora comercial da Ipel, Daniel Signori, diretor técnico da Mili, Fernando Pinheiro, CEO da Copapa, e Marcelo De Domênico, CEO da Damapel – para entender melhor a respeito desse cenário em 2021 e quais são as projeções para 2022. Confira:

ALTA DA CELULOSE

Todos os insumos para a produção de papel tissue tiveram aumentos de custos alarmantes. O principal insumo, a celulose, este ano, atingiu seu pico histórico e sofreu os reflexos dos movimentos cambiais no Brasil, por ser precificada em dólar.

Para efeitos de comparação, em agosto de 2020, o preço final da celulose estava em R$ 3.713,62 (com o dólar a R$ 5,46 e índice a $ 680,00). Em novembro de 2021, esse valor subiu para R$ 6.372,60, já que a moeda estrangeira convertida subiu para R$ 5,59 e o índice disparou para $ 1.140,00. No total, a alta foi de mais de 80% no intervalo.

“Os custos de matéria-prima e insumos foram os maiores vilões para o setor tissue em 2021. Em nenhum momento anterior, à exceção do período hiper-inflacionário pré-plano real, vimos uma crescente nos custos em geral conforme agora”, diz o CEO da Copapa.

“O repasse é bastante complicado para todos os lados. A indústria não quer perder sua competitividade e se vê ‘acuada’ frente a essa alta. É bastante difícil, para não dizer impossível, fazer o repasse na mesma ordem que se necessita para estabilizar os custos”, diz a diretora comercial da Ipel.

O fato de o mercado ser muito competitivo, com grandes players integrados, dificulta ainda mais a negociação para indústrias que não têm a produção de celulose, afetando diretamente sua rentabilidade para manutenção do caixa, além de impossibilitar novos investimentos.

“Estamos passando por um dos piores anos do tissue no Brasil. Sabemos que a celulose representa pelo menos 50% do custo de produção e não conseguimos recuperar nem 10% de preço de produto acabado, graças ao mercado estar super ofertado por excesso de capacidade de máquinas”, acrescenta o diretor técnico da Mili.

Segundo o CEO da Damapel, o preço da celulose subiu “assustadoramente e muito rápido, ocasionando um desequilíbrio entre as empresas e o varejista”. Por conta das oscilações do índice que precifica a matéria-prima, Marcelo acredita que ela deveria estar listada na Bolsa de Valores, como a soja e o cobre, para que as variações fossem “mais controladas e transparentes”.

OUTROS INSUMOS

E não foi apenas a alta da celulose e do dólar que surpreenderam e assustaram o mercado. Os preços subiram repentinamente e de forma generalizada, seja pela alta do dólar ou pela lei de oferta-demanda. De forma geral, pode-se citar aumentos de:

  • Biomassa (cavaco), com um indicador acima de 80% de ajuste de custo
  • Aparas de papel, independente da qualidade ou classificação
  • Embalagens, principalmente as oriundas de resinas plásticas, mas também nas caixas de papelão
  • Produtos químicos, tanto os de processo quanto os de uso geral na indústria
  • Maculatura (fita utilizada para fabricação de tubetes internos de papéis higiênicos e papéis toalha bobina)
  • Energia elétrica
  • Gás liquefeito
  • Diesel
  • Mão-de-obra
  • Logística

As aparas, por exemplo, sofreram grande alta em virtude da forte demanda por conta da necessidade natural das fábricas de substituição da fonte de fibras, além de um aquecimento do setor de embalagens de papel e papelão. Antes disso, elas já eram escassas no mercado devido às restrições impostas pela pandemia, e passaram a ser alvo de disputa em segmentos não concorrentes.

No caso das resinas plásticas, elas atingiram seu auge de aumento em abril de 2021, quando o polietileno de baixa densidade (PEBD), o qual é a base para as embalagens que formam os pacotes e os fardos de papeis higiênicos, guardanapos, lenços, fraldas, absorventes e toalhas, chegaram ao ápice de seus preços, ao alcançarem um valor 150% maior que os valores praticados em janeiro de 2020. Após esta alta, não houve quedas dos preços e, sim, uma estabilização.

O papelão, encontrado nas caixas de toda a linha profissional, além de guardanapos e lenços, também sofreu uma alta superior a 110%. Além disso, foi um produto considerado escasso em alguns períodos de 2021, pois a demanda para outros segmentos exigiu um esforço redobrado dos setores de suprimentos das indústrias. Assim como os demais insumos, a queda de preço não seguiu a mesma velocidade da alta, e seu custo ainda está bem distante dos valores praticados em 2020.

Na linha de produtos químicos em geral, houve alta devido às variações cambiais e também em relação à escassez de matéria-prima. Como exemplo, pode ser citado o sulfato de alumínio, utilizado para o tratamento de águas em geral, cujo uso é bastante difundido devido ao seu bom custo-benefício em relação aos outros produtos. Atualmente, seu preço está mais de 201% superior em relação ao início do ano. A disparidade foi reflexo da falta de ácido sulfúrico, base da produção deste insumo, também em decorrência da pandemia.

CRISE GENERALIZADA

A alta dos custos das matérias-primas não foi refletida no preço final do produto, havendo um desequilíbrio entre a alta do custo e o seu preço de venda em mais de nove meses neste ano. “Este desencontro tem várias explicações, dentre elas, está a redução do poder de compra da população brasileira, o que promoveu uma mudança do consumo para produtos de menores preços, em substituição ao seu consumo tradicional, fruto dos efeitos econômicos da pandemia”, diz Fernando Pinheiro.

Ele salientou, ainda que esse movimento afetou todos os níveis econômicos: as classes C a D, por exemplo, deixaram de adquirir produtos não essenciais e buscaram opções mais econômicas, enquanto a A e B diminuíram o consumo em virtude da racionalização dos produtos e optaram por compras em canais alternativos.

Fernando ressalta que essas dificuldades não se aplicam somente ao Brasil, mas a países como Reino Unido, China e Estados Unidos. “O mundo todo está passando por estas dificuldades em maiores e menores graus. A economia mundial está em descompasso, pois a pandemia atingiu os países em momentos diferentes além de que, os governos adotaram medidas diferentes para combatê-la, tanto em termos sanitários quanto econômicos”, argumenta.

Nestes países, porém, a retração do consumo do mercado de tissue foi menor, haja vista que seus padrões de consumo per capita são de duas a quatro vezes maiores que o do Brasil. “Além disso, nestes mercados, a concentração da participação por grandes empresas é maior que no Brasil, o que permite a estas um maior controle dos preços. Além disso, estas economias, com exceção da China, não desvalorizaram sua moeda como o real, o que diminuiu seu impacto em relação ao Brasil”, completa Fernando.

“O Brasil é o país que menos conseguiu repassar preços. Nossa realidade de concentração do varejo e seu poder de compra, associado ao excesso de produtos disponíveis, criou uma tempestade perfeita no mercado nacional. A realidade das empresas tem sido cortes de pessoal e de custos para tentar se adaptar, infelizmente a situação está bastante crítica. Neste ritmo de preços, a indústria não conseguirá renovar seu parque industrial, o que é muito ruim para as indústrias de equipamentos e para toda a cadeia envolvida”, pondera o diretor técnico da Mili.

Além disso, “houve forte desvalorização do real e alta de juros”, completa o CEO da Damapel. Somando todos esses fatores, Marcelo De Domênico acredita que este é “um momento bastante complexo para todos os setores. Um efeito perverso do pós-pandemia”.

Estes desafios não se aplicam apenas ao mercado de consumo. “Mesmo quando falamos do mercado de limpeza profissional, a dificuldade de repasse a distribuidores, de maneira geral, também é muito custosa, pois a grande maioria atua com contratos anuais e os ajustes acabam afetando diretamente sua margem. A indústria é que acaba ficando com a maior parte deste prejuízo, pois não consegue cascatear para as redes ou para distribuidores, no caso da limpeza profissional, o índice necessário para compor seus custos mínimos”, acrescenta a executiva da Ipel.

PROJEÇÕES PARA O FUTURO

Na visão de Luciana Dobuchak, o último bimestre de 2021 será tão duro como os demais. De acordo com estudo feito pela Macquarie Bank, a tendência é de uma pequena queda na celulose ao longo de 2022, mas com um dólar médio muito superior ao de 2021 – assim, ela não acredita que o indexador caia a ponto de repor parte das perdas.

“Será um grande desafio manter as indústrias competitivas e, ao mesmo tempo, perpetuar a longevidade de atividades e ações, pois os caixas estão sofrendo há mais de dez meses; o consumo, de maneira geral, não está tendo crescimento efetivo e a oferta de papel para o mercado ainda é maior que o consumo da população no nosso país”, fala.

“Todos os produtores não-verticalizados, os chamados ‘independentes’, como a Ipel, sofrerão ainda mais nas negociações e busca de melhores custos na celulose. A consolidação do mercado com grandes players, na sua grande maioria integrados (produtores de celulose), também trará um cenário de competitividade desigual, em que as indústrias de médio porte do segmento terão que rever muitos dos seus processos comerciais para poder se manter, a médio prazo, no mercado”, conclui a diretora comercial da Ipel.

“Infelizmente, temos uma expectativa bastante pessimista para o próximo ano e também fechamento do ano de 2021, estamos bastante estocados em produto final e perdendo vários negócios por não conseguir acompanhar os preços de alguns concorrentes. Tomamos a decisão firme de não seguir com a guerra de preços predatória, temos uma visão de longo prazo na Mili e lutamos pela perpetuação e saúde financeira da empresa”, finaliza Daniel Signori.

O CEO da Damapel afirma que não há perspectiva de crescimento neste ano, mas 2022 pode ter uma leve recuperação. “Estamos repondo preços, portanto, será um momento de fortes negociações, com o país vivendo um processo inflacionário. Nós entendemos que, em 2022, o mercado irá ficar mais estável e com um leve crescimento”, finaliza.

A boa notícia é que, caso a economia global reaja de forma positiva no pós-pandemia, as perspectivas podem ser um pouco mais otimistas no ano que vem, na opinião de Fernando Pinheiro. “O avanço da vacinação e uma possível ampliação do valor do Auxílio Brasil (novo programa de transferência de renda do governo federal) contribuirão para a recuperação econômica”, pontua.

“Desta forma, seguimos com as estratégias que sempre nos pautaram e se fizeram ainda mais presentes em 2021: austeridade, contenção de despesas, reposicionamento do portfólio, avaliação minuciosa dos resultados e a busca incessante pela perpetuidade do negócio”, encerra o CEO da Copapa.

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