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Marca própria no tissue: o espelho americano e o que ele diz sobre o Brasil

Crescimento acelerado do segmento nos EUA revela uma mudança estrutural no consumo e no varejo, oferecendo sinais claros sobre os próximos movimentos competitivos da indústria brasileira de tissue

Em 11 anos, as marcas próprias (private label) de papel higiênico nos Estados Unidos passaram de menos de 10% para cerca de 37% de participação de mercado. No papel toalha, o movimento foi ainda mais agressivo, indo de 27% em 2014 para 45% em 2025. Em valores absolutos, os dois segmentos combinados saltaram de US$ 3 bilhões para quase US$ 10 bilhões no período. São números que Luigi Lazzareschi, CEO da Sofidel, apresentou no Tissue World Miami 2026 com a clareza de quem os construiu de dentro.

A tese central de Lazzareschi não é sobre ciclo. É sobre estrutura. “Não há picos devido à inflação”, afirmou durante sua apresentação. “É uma mudança de longo prazo”. Para o executivo, o que está em curso nos EUA não é uma resposta temporária de consumidores pressionados pelo custo de vida, mas uma reconfiguração permanente de preferências, acelerada por dois vetores simultâneos: a mudança de comportamento das gerações mais jovens e a decisão estratégica dos grandes varejistas de usar a marca própria como ferramenta de fidelização.

Lazzareschi foi direto ao detalhar o papel dos varejistas. Segundo ele, as grandes redes não estão empurrando marcas próprias apenas porque a margem é melhor, embora seja. Estão fazendo isso porque perceberam que a marca própria cria vínculo com o consumidor de forma que as marcas nacionais não conseguem replicar. Quem compra a marca da loja volta à loja. Nas palavras do CEO da Sofidel, os varejistas “entenderam que podem construir a fidelidade do cliente” por esse caminho. As club stores americanas, como Costco, Sam’s Club e BJ’s, foram citadas por ele como motores decisivos desse crescimento, por combinarem inovação contínua de produto com colaboração profunda na cadeia de suprimentos.

A Sofidel chegou aos EUA há 14 anos com uma estratégia deliberadamente construída sobre dois pilares: cobertura geográfica nacional e tecnologia de produção de ponta. Hoje opera quatorze instalações no país. A lógica, segundo Lazzareschi, veio diretamente da experiência europeia, onde a empresa aprendeu que competir em marca própria exige mínimo custo em duas frentes: produção e logística. “Você tem que estar perto de seus clientes”, disse. A expansão nos EUA foi uma replicação calculada desse modelo.

QUAL A RELAÇÃO COM O BRASIL?

O mercado brasileiro de tissue opera em um estágio que os EUA já deixaram para trás. O segmento de marca própria local ainda representa uma fração do que representa no mercado americano atual e uma fração ainda menor do que representa na Europa, onde a Sofidel aprendeu sua lição original. A trajetória americana, construída em onze anos com um crescimento que triplicou o tamanho do segmento, funciona como referência para o que tende a acontecer aqui.

Dois fatores já estão presentes no Brasil que aceleram esse movimento: varejistas nacionais e redes internacionais com crescente apetite por margem própria, e uma base de consumidores de renda média que, pressionada por inflação persistente, experimenta marcas próprias e, em parcela significativa, não volta. O vetor comportamental que Lazzareschi descreve nos EUA – Geração Z e Geração Alpha com menor resistência à marca própria – também opera aqui.

A implicação para fabricantes e fornecedores que atuam no Brasil é direta. O crescimento da marca própria não é uma pressão a ser gerida taticamente, é uma reconfiguração competitiva que exige posicionamento estrutural. Para fabricantes, isso significa decidir se e como servir esse segmento sem destruir a equação de valor das marcas.

Para fornecedores de insumos e equipamentos, significa que os players que se moverem em direção à marca própria vão demandar eficiência de produção e proximidade logística de forma crescente, exatamente os dois critérios que, segundo Lazzareschi, determinaram quem venceu nos EUA.

Na conclusão de sua apresentação, o CEO da Sofidel citou a resposta que o ChatGPT deu quando perguntado sobre o futuro do setor: o mercado de tissue será dominado por quem criar valor real em toda a cadeia. Marcas continuarão a existir, mas apenas se oferecerem diferença concreta. A marca própria continuará a crescer, mas apenas se evoluir em qualidade.

O risco principal, na leitura de Lazzareschi, não é a competição entre marcas e marca própria, é a destruição de valor que ocorre quando a guerra de preço leva à queda de qualidade e o consumidor perde confiança no produto. “Você não pode crescer em um mercado que está ficando mais pobre a cada dia”, disse.

O espelho americano mostra um mercado que levou 11 anos para chegar aonde está. O Brasil começa a olhar para esse espelho agora.

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