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Cascades economiza US$ 78 milhões sem lançar um produto

Como a mudança de uma métrica de supply chain reconfigurou os resultados financeiros de um dos maiores fabricantes de tissue da América do Norte

Durante o Tissue World Miami 2026, Jerome Porlier, vice-presidente executivo da Cascades, apresentou no uma tese incomum para a indústria: o principal vetor recente de criação de valor para fabricantes de tissue não está em inovação de produto, expansão de capacidade ou fusões, mas na forma como a cadeia de suprimentos é medida e gerida.

O ponto central da mudança descrita por Porlier foi a migração do indicador OTIF (on time and in full) para o in-stock como métrica operacional principal. A diferença entre os dois modelos não é apenas técnica. Enquanto o OTIF mede a entrega correta ao varejista, o in-stock avalia a disponibilidade efetiva do produto na prateleira no momento da compra.

“Você pode ter os produtos no depósito do varejista e nada estar na prateleira. O consumidor chega, não encontra o produto, e vai embora. Essa é a venda que você perde – e talvez o cliente que você perde”, afirmou Porlier durante o evento.

A partir dessa mudança, a Cascades passou a integrar dados ao longo de toda a cadeia – da matéria-prima ao ponto de venda – e a monitorar diariamente os níveis de estoque em lojas parceiras. A meta operacional definida foi manter o in-stock acima de 98% do tempo, como compromisso rastreável de performance.

Segundo os dados apresentados pela companhia, os impactos foram diretos. Em um único varejista, foram identificados e preservados US$ 13 milhões em vendas que teriam sido perdidas por ruptura de prateleira. No nível de cadeia, a empresa reduziu em dez dias o volume de estoques, liberando US$ 65 milhões em capital de giro. Além disso, revisões de processos administrativos baseadas nos novos fluxos de dados resultaram na redução de 15% das funções de back-office nos últimos dois anos.

Os resultados foram alcançados sem lançamento de novos produtos, expansão industrial ou aquisições. Segundo a empresa, os ganhos resultam da reorganização da forma como os dados da cadeia são interpretados e utilizados na operação.

Para o mercado brasileiro de tissue, o caso reforça um desafio estrutural. O OTIF ainda é amplamente utilizado como principal indicador de serviço ao cliente, por ser interno e de fácil mensuração. No entanto, ele não captura a disponibilidade real do produto no ponto de consumo, o que pode gerar distorções relevantes na leitura de performance.

A experiência da Cascades indica que a integração de dados com varejistas e o monitoramento do ponto de venda podem gerar ganhos financeiros mensuráveis em três frentes principais: capital de giro, receita preservada e redução de custos operacionais. A questão que se coloca para os fabricantes é menos sobre viabilidade técnica e mais sobre prioridade estratégica de adoção.

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