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Por que ainda é tão difícil fazer um tissue realmente macio?

Por Edison Strugo Muniz, engenheiro eletrônico e especialista em papel e celulose, com sólida experiência no setor

Na nossa indústria, ninguém precisa que expliquem o que é papel tissue. O desafio não é o conceito, é a entrega: como obter, de forma consistente, um produto com maciez percebida realmente superior, sem sacrificar resistência, absorção e desempenho de máquina. No fundo, a diferença entre um tissue aceitável e um tissue memorável está em como combinamos a fibra de eucalipto, em menor escala fibras recicladas, a estrutura da folha, a química de coating e a estratégia de crepe.

O eucalipto é o protagonista natural do tissue moderno. Dimensões das fibras, espessura de parede, coarseness, população fibrosa e capacidade de ligação fibra‑fibra determinam WRV, porosidade, drenagem, bulk, rigidez, tração, rasgo e opacidade. Essa combinação permite atingir altas populações fibrosas com boa formação, o que favorece maciez e absorção sem perder o controle de resistência.

A fibra reciclada, quando utilizada, entra mais como apoio em determinadas grades ou estratégias de custo, já que múltiplos ciclos de reciclagem tendem a penalizar conformabilidade e potencial de ligação. Mas a fibra sozinha não resolve o problema da maciez. É na interação com a tecnologia de máquina e com o coating aplicado ao Yankee que o perfil do produto realmente se define.

Na tecnologia LDC (Light Dry Creped), ainda a mais difundida, a prensagem antes do Yankee é significativa. Remove‑se mais água mecanicamente, gerando uma folha mais densa, com menor volume, maciez e absorção, porém com maior resistência. A crepagem, realizada por uma lâmina que “raspa” a folha do Yankee, introduz microdobras que devolvem parte da maciez e elasticidade, mas dentro de uma janela estreita de operação.

Na tecnologia TAD (Through‑Air Drying), reconhecida por produzir o tissue de mais alta qualidade, praticamente não há prensagem. A desidratação é feita a vácuo e por ar quente atravessando a folha, preservando uma estrutura tridimensional de alta porosidade. O resultado é um tissue com alto volume, maciez excepcional e capacidade de absorção superior, padrão premium e ultrapremium – com custo de capital e energia significativamente maior. Soluções híbridas, como CTAD e UCTAD, buscam capturar parte desse ganho de estrutura com maior velocidade e menor custo.

Nesse cenário, o coating deixa de ser detalhe químico e passa a ser alavanca estratégica. A formulação e a aplicação do coating no Yankee controlam adesão, lubrificação, proteção da superfície e o próprio padrão de crepe. Ajustes em sólidos, relação adesivo/release, temperatura e perfil transversal, em sinergia com as características da pasta de eucalipto (e eventuais teores de reciclada), podem modificar de forma significativa a maciez percebida, resistência e estabilidade operacional, sem trocar máquina nem receita básica de fibras.

Nos próximos artigos, vou abrir essa caixa‑preta do coating e da crepagem, mostrando como pequenos ajustes podem reposicionar o nível de maciez de uma linha de tissue já instalada. No livro “Processos de Celulose e Papel: Da Floresta ao produto Acabado”, de minha autoria, também há  várias informações disponíveis sobre o processo de fabricação de papel tissue.

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Edison Strugo Muniz

Edison Strugo Muniz é engenheiro eletrônico formado pela PUC-RS e pós-graduado em Celulose e Papel pela UFV. Atua como diretor técnico na Kappa.CIT e integra a Clínica Freepess na área de celulose e papel. É professor do curso de Pós-Graduação em Celulose e Papel da UFV/UFRR-J/ABTCP e já lecionou disciplinas ligadas a Celulose e Papel, Metrologia, Instrumentação e Sistemas de Supervisão na Uniplac. Palestrante e autor de artigos técnicos, tem atuação nas áreas de papel e celulose, automação industrial e controle de processos, com contribuições junto à ISA e à ABTCP.
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