Até que ponto produzir marcas próprias fortalece sua indústria e quando passa a enfraquecer sua própria marca?
Tem indústria financiando o competidor mais agressivo da própria gôndola. E assinando esse contrato com alívio
A frase parece exagerada. Mas basta observar o que está acontecendo no mercado de tissue brasileiro.
As marcas próprias do varejo vivem um dos momentos mais fortes de sua história. No Brasil, o segmento cresce cerca de 9,2% ao ano, segundo dados apresentados pela NielsenIQ durante o SIMP 2025.
Mais do que isso: 58% dos consumidores brasileiros afirmam que pretendem ampliar a compra de marcas próprias nos próximos anos, enquanto 51% já consideram sua qualidade igual ou superior à das marcas tradicionais.
Na Europa, em diversas categorias de consumo, as marcas próprias já representam mais de um terço das vendas. O Brasil ainda está distante desse patamar, o que indica um amplo espaço para crescimento nesse segmento.
SE O MERCADO ESTÁ CRESCENDO, ONDE ESTÁ O RISCO?
Para a indústria, produzir marcas próprias costuma ser uma decisão bastante atraente.
Embalagens bem desenvolvidas por uma equipe de marketing mais robusta, volumes de vendas e produção garantidos por contratos de longo prazo, maior ocupação da capacidade produtiva, o que otimiza os ativos, mais previsibilidade do faturamento e maior diluição dos custos fixos.
Para uma fábrica com ociosidade, parece a solução perfeita. E, muitas vezes, realmente é.
O problema não é fabricar marcas próprias.
O problema começa quando elas deixam de ser uma estratégia e passam a ser um remédio para esconder dificuldades comerciais.
Quando o objetivo passa a ser apenas manter as máquinas funcionando, decisões importantes ficam em segundo plano.
Aceita-se reduzir margem para conquistar volume e, por vezes, aceitam-se contratos sem horizonte de revisão.
Aceitam-se condições comerciais que dificilmente seriam aceitas para a própria marca da indústria.
QUEM REALMENTE ESTÁ GANHANDO ESSA NEGOCIAÇÃO?
É nesse momento que surge um efeito pouco percebido: a indústria passa a fortalecer exatamente o produto que disputará espaço com sua própria marca na mesma gôndola.
E não apenas isso.
Ao longo da negociação, o varejo passa a conhecer profundamente sua estrutura de custos, sua produtividade, sua capacidade instalada e seus limites comerciais.
O efeito pode ser silencioso e duradouro.
A marca própria cresce.
O consumidor passa a enxergar uma alternativa de qualidade semelhante por um preço menor.
Em resposta, a marca da indústria reduz preços ou aumenta investimentos em marketing para recuperar competitividade.
No fim, a rentabilidade diminui dos dois lados.
ENTÃO FABRICAR MARCA PRÓPRIA É UM ERRO?
Definitivamente, não.
Grandes fabricantes internacionais construíram operações altamente rentáveis produzindo para varejistas. Em muitos casos, transformaram esse modelo em uma vantagem competitiva.
A diferença está na forma como essa estratégia é conduzida.
A palavra-chave é governança.
Produzir marca própria exige uma política comercial clara.
É preciso definir:
- Quais canais serão atendidos?
- Quais categorias fazem sentido?
- Qual participação essa operação pode representar no faturamento?
- Quais margens preservam a sustentabilidade do negócio?
Sem esses limites, uma oportunidade pode se transformar em dependência.
E eficiência também é estratégia.
Tecnologias que reduzem o consumo de fibras, diminuem os tempos de parada, aumentam a produtividade, reduzem perdas e agregam valor ao produto permitem competir de outra forma: pela eficiência, e não apenas pelo preço.
A PERGUNTA NÃO É MAIS SE SUA EMPRESA PRODUZIRÁ MARCAS PRÓPRIAS.
No mercado tissue, esse movimento continuará crescendo. A verdadeira reflexão é outra:
Sua empresa está utilizando a marca própria para fortalecer o negócio…
…ou, sem perceber, está financiando o concorrente mais forte da própria gôndola?



















