NotíciasReportagem especial

Indústria de tissue acelera reposicionamento estratégico em um cenário mais desafiador

Executivos da IPEL, Damapel e Jakspel analisaram os desafios de margem, diferenciação e eficiência que vêm redefinindo a dinâmica competitiva da indústria de tissue no Brasil

A indústria brasileira de tissue atravessa um momento de maior complexidade operacional e estratégica, marcado pela combinação de custos em alta, consumo estagnado e a necessidade crescente de adaptação dos modelos de negócio.

O cenário foi tema central do Painel de Executivos que integrou a programação do Tissue Summit Brasil 2026 e reuniu lideranças do setor para discutir os caminhos de competitividade em um ambiente mais desafiador, em linha com o tema do evento, voltado à integração entre tecnologia, pessoas e gestão na Indústria 5.0.

Com mediação de Felipe Quintino, CEO do Nexum Group, o debate contou com Luciano de Liz Barboza, CEO da IPEL; Marcelo Domenico, CEO da Damapel; e Renan Rodrigues, CEO da Jakspel, reunindo diferentes perspectivas sobre os ajustes necessários para sustentar o crescimento da indústria.

DESCOMPASSO ENTRE CUSTOS E CONSUMO

O descompasso entre custos e consumo aparece hoje como o principal ponto de tensão da indústria de papel tissue. Luciano de Liz Barboza destacou que o Brasil segue com níveis estáveis de consumo per capita, enquanto outros mercados avançaram significativamente nos últimos anos.

“O Brasil continua consumindo cerca de 6 quilos per capita, enquanto outros países evoluíram. Ao mesmo tempo, vemos aumentos relevantes em celulose, plástico e diesel”, comentou.

Renan Rodrigues reforçou que esse cenário é agravado por fatores macroeconômicos que limitam a capacidade de reação das empresas. “A gente vive hoje uma pressão de preços muito grande, com impacto direto de custos como combustível, frete e insumos”, afirmou.

Segundo ele, juros elevados, custos logísticos e o comprometimento da renda das famílias tornam o ambiente ainda mais restritivo para o setor.

DIFERENCIAÇÃO E PORTFÓLIO

Nesse contexto, a diferenciação deixa de ser opcional e passa a ser condição para competir. A lógica passa por sair de uma atuação focada exclusivamente em produto e avançar para um modelo mais orientado a soluções e serviços.

“Precisamos nos posicionar como empresas de serviços, ampliando portfólio e oferecendo mais ao cliente”, afirmou o CEO da IPEL.

Marcelo Domenico reforçou que, para fabricantes não integrados, esse movimento é ainda mais crítico. “Para nós, o caminho passa por diferenciação, serviço e inovação”, disse.

A ampliação do portfólio e o aumento do valor agregado aparecem, assim, como mecanismos relevantes para recomposição de margens.

BAIXO VALOR AGREGADO E DISTORÇÕES DO MERCADO

A permanência de produtos de baixo valor agregado revela uma distorção estrutural do mercado brasileiro. Apesar das limitações operacionais que impõem, esses itens seguem presentes por atenderem à lógica do varejo e ao poder de compra do consumidor.

Luciano destacou que a precificação do papel tissue no Brasil segue distante de padrões internacionais, o que pressiona toda a cadeia. “Enquanto essa equação não for ajustada, continuaremos reduzindo gramatura e metragem para viabilizar o produto”, afirmou.

Marcelo acrescentou que a percepção de valor do consumidor segue sendo um desafio adicional, influenciando diretamente o mix de produtos disponíveis no mercado.

EFICIÊNCIA COMO CONDIÇÃO BÁSICA

Com pouca margem para repasse de custos, a eficiência operacional deixa de ser diferencial. Ela passa a ser condição básica para a sustentabilidade do negócio.

“A eficiência vai deixar de ser uma vantagem competitiva e vai passar a ser um fator de sobrevivência”, afirmou o CEO da Jakspel.

A evolução da execução, que vai do processo produtivo à entrega, se consolida como elemento-chave para manter a competitividade em um cenário mais pressionado.

TECNOLOGIA, PESSOAS E GESTÃO

O avanço tecnológico segue relevante, mas deixa de ocupar um papel isolado dentro das estratégias industriais. Na prática, seu impacto está diretamente ligado à capacidade de integração com pessoas e gestão.

“A tecnologia, de forma isolada, é um custo. Ela passa a ser investimento quando melhora a eficiência do trabalho humano”, destacou Renan.

O uso de máquinas mais modernas e de indicadores de gestão contribui para ganhos de produtividade, especialmente na redução de perdas e no controle operacional das indústrias de tissue.

MÃO DE OBRA COMO DESAFIO ESTRUTURAL

A escassez de profissionais se consolida como um dos principais desafios estruturais da indústria papeleira.

Marcelo Domenico destacou a dificuldade de atrair e reter mão de obra, especialmente em funções mais técnicas. “Está cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a trabalhar em operações industriais”, afirmou.

Renan reforçou que o desafio vai além da qualificação, exigindo formação interna e construção de engajamento dentro das empresas.

PRESSÃO DE CURTO PRAZO E TRANSFORMAÇÃO

O que se desenha é um setor pressionado no curto prazo, mas forçado a evoluir estruturalmente. Entre custos elevados, mudanças no consumo e evolução tecnológica, a indústria de tissue avança para modelos mais orientados à eficiência, diferenciação e maior proximidade com o cliente.

Nesse cenário, a capacidade de adaptação das empresas, segue combinando execução operacional, estratégia e desenvolvimento de pessoas, fatores que serão determinantes para sustentar a competitividade do setor nos próximos anos.

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Sandra Nascimento

Sandra Nascimento é jornalista, pós-graduada em Comunicação Organizacional e desde 2022 escreve sobre os mercados de papel e celulose.
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