Executiva da P&G ajuda a criar projeto que prevê distribuição gratuita de absorventes no Brasil
Daniela Rios, diretora de relações governamentais e políticas públicas da companhia, dialogou por dez meses com autoridades do país até a sanção de uma matéria que ajuda a amenizar a pobreza menstrual
Globalmente, uma em cada dez meninas falta às aulas por falta de acesso a produtos menstruais, de acordo com um relatório das Nações Unidas de 2014, originando a chamada “pobreza menstrual”. No Brasil, assim como na Índia e nos EUA, esses números aumentaram para uma em cada quatro garotas, fazendo-as recorrer a meias, papel higiênico, pão e até pedaços de jornal para tentar conter o fluxo mensal.
Esse cenário levou a brasileira Daniela Rios, diretora de relações governamentais e políticas públicas da P&G, a lutar por um projeto de lei para fornecer produtos gratuitos para meninas e mulheres de baixa renda em seu país. A matéria foi sancionada em março no Brasil. Em seguida, decisões globais semelhantes foram tomadas, incluindo a recente mudança da Escócia para fornecer esse tipo de produtos às meninas necessitadas, a partir de agosto.
COMO TUDO COMEÇOU
Na P&G há dez anos, Daniela ingressou na companhia para trabalhar com relações governamentais. Antes disso, teve uma carreira como advogada. “Aqui tenho a chance de trabalhar com políticas públicas. Essa é minha paixão. Sou apaixonada por políticas públicas, porque acho que é uma forma de mudar vidas. Acho que isso está muito ligado à missão da empresa, e à minha missão pessoal, acho que devemos agir quando você vê algo errado, e fazer a coisa certa é a coisa certa a se fazer”, conta.
No ano passado, ela constatou que a realidade no Brasil sobre a pobreza menstrual era bastante grave, prejudicando uma a cada quatro meninas em fase escolar. “Também vemos que, na maioria das vezes, as meninas escondem a razão pela qual estão fazendo isso. A falta de confiança também é importante. É algo que aumenta as lacunas entre quem tem a oportunidade de ter produtos menstruais. É uma loucura ver que isso é um privilégio neste país, e também em todo o mundo”, defende.
As classes mais baixas, obviamente, são as mais afetadas e levam as meninas a improvisarem soluções desconfortáveis e que podem prejudicar a sua saúde. “Já imaginou usar pão no corpo, tentar se manter na escola para tentar se manter nos esportes ou ter uma vida social? Isso é inaceitável”, afirma. “Então eu sabia que poderíamos fazer alguma coisa. Somos uma grande empresa, temos portas para abrir, e eu queria muito conversar com as pessoas”.
Nesse sentido, Daniela fez propostas ousadas para tentar ajudar a mudar esse quadro. “Propus fazer um tour pelo país, explicar às autoridades, aos congressistas, aos governadores, secretários de educação, secretários de saúde? ‘quais são as consequências, por que temos um problema aqui, e como nós resolvemos?’”, relembra.
Na P&G, a principal contribuição gira em torno de doações para as meninas, o que Daniela considera insuficiente – para ela, é preciso que haja políticas públicas consistentes. “Isso é algo que vai durar e a empresa confiou em mim. Foi um grande presente que eles acreditam que era possível”, diz. E depois de dez meses trabalhando duro para chamar a atenção das autoridades e tomadores de decisão, veio o resultado. “Temos uma legislação aprovada no congresso brasileiro, que é uma obrigação do governo no Brasil de fornecer absorventes”.
Além de uma importante conquista profissional, essa vitória também é significativa para a executiva enquanto mãe e mulher. “Minha filha tem quatro anos. Tentei explicar o que aconteceu porque ela me viu chorando no dia em que o congresso brasileiro aprovou a legislação. Eu estava chorando, gritando, abraçando meu marido. Tentei explicar que estava tentando tornar o mundo melhor, para ela e para a sociedade”, fala.
Para Rios, a vitória obtida em seu país é apenas um ponto de partida, que ela acredita que deve ser aberto a todo o mundo. “Estou muito feliz com tudo o que aconteceu e como isso aconteceu. Mas não é o fim da linha. É uma viagem. Continuamos nesse trabalho, para garantir que todas as meninas tenham as mesmas oportunidades. Acho que quando chego a uma empresa como a P&G, ela é criativa, é uma empresa que acredita em inovação, não só de produtos, mas também de processo. Também para a sociedade. Estamos sempre pensando em servir. Estamos sempre pensando na evolução, em oportunidades, e é por isso que sinto que estou no lugar certo para liderar com amor”, conclui.











