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Brasil é um mercado prioritário para Kimberly Clark, afirma CEO

Depois de atuar na Kimberly-Clark em diversos países, o uruguaio Gustavo Schmidt tem o desafio de liderar inovações para o mercado de cuidados pessoais e bem-estar no Brasil — sem esquecer a responsabilidade social da empresa

O sotaque carregado de Gustavo Schmidt não esconde suas origens. Aos 51 anos, o uruguaio ainda tropeça quando o assunto é a língua portuguesa — e pede perdão por isso. Desde fevereiro de 2017, quando assumiu a operação local da multinacional americana Kimberly-Clark, Schmidt atua para que sua equipe trabalhe de forma mais ágil, simples e eficiente. Para isso, seu foco é a inovação e a busca por novas soluções para o complexo mercado brasileiro. Uma das saídas encontradas é desenvolver o segmento de cuidados pessoais para o público adulto, por meio da marca Plenitud. Em outra esfera, a Kimberly-Clark mantém seus olhos voltados a um problema que muitos não querem ver: a falta de saneamento básico no País. “Quase metade da população brasileira não tem acesso à coleta de esgoto”, diz Schmidt. “Para ajudar a resolver isso, investimos no programa Banheiros Mudam Vidas. É algo que faz parte do nosso compromisso global como empresa.”

O senhor está à frente da operação da Kimberly-Clark Brasil desde fevereiro de 2017. Nesse mesmo período, a economia local patinou. Como está sendo esse desafio?

“O Brasil é uma operação muito importante para a Kimberly-Clark. É um mercado prioritário para nós, um dos maiores do mundo. Fica, normalmente, entre o terceiro e quarto maior mercado para a companhia, atrás dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, e praticamente empatado com o Reino Unido. Ainda somos maiores que a China, que tem crescido. O nosso principal desafio é crescer. E temos que fazer isso a uma velocidade maior que o resto da companhia, pois se espera muito da operação brasileira. Uma coisa que eu tento incorporar é a inovação. A Kimberly-Clark é uma empresa que tem muita tecnologia para analisar o perfil do consumidor e encontrar soluções. Alguma coisa disso estava atrasada no País. Então, nós incorporamos muita inovação para desenvolver outros segmentos, como, por exemplo, a categoria de cuidados para adultos. Esse é um mercado que tem acelerado muito nos últimos anos.”

A Kimberly-Clark anunciou que sacrificaria as margens para manter o crescimento em volumes e elevar sua participação de mercado no País. Essa estratégia tem dado certo?

“Nós temos que atender a todos os segmentos dos consumidores brasileiros. Sabemos que a maioria deles está em uma situação desafiadora. Então, nós participamos mais de atividades promocionais ultimamente. Nós reajustamos o preço dos nossos produtos ao bolso do consumidor, mas sempre tentando agregar valor para ele. Nos últimos dois anos, essa estratégia vem sendo bem-sucedida. A Kimberly-Clark tem elevado a sua participação de mercado e crescido em vendas.”

E como estão os esforços para ganhar mais presença de mercado no Brasil? A empresa pretende desenvolver novas marcas?

“Não estamos desenvolvendo novas marcas no momento. A nossa estratégia é voltada ao crescimento dos produtos que já estão com alta penetração de mercado, como Neve ou Huggies. Mas também estamos apostando no desenvolvimento de outros segmentos.”

Os investimentos que a empresa planeja fazer por aqui estão ligados à conjuntura econômica e política?

Não. Nós olhamos oportunidades para os consumidores. Nesses últimos dois anos, temos investido em todas as categorias, absolutamente todas. E não estamos falando só de investimentos em termos de sustentabilidade para sermos mais eficientes e reduzirmos custos. Também estamos expandindo a nossa capacidade produtiva. Ou seja, a Kimberly-Clark acredita mesmo no Brasil. Nós entendemos que o País é um mercado prioritário e não deixamos de investir nesses últimos anos. Temos exemplos de investimentos tanto para categorias que estão em expansão, como de cuidados adultos ou de papéis higiênicos, com a nossa marca Neve. Desde quando eu cheguei à operação brasileira posso dizer que nunca recebi uma negativa sequer para investimentos de médio ou longo prazo. Ou seja, o Brasil tem sido um mercado prioritário para a empresa e isso não mudou por conta da crise.”

Mas a empresa encerrou as atividades de uma fábrica localizada em Eldorado do Sul (RS), que contava com cerca de 300 funcionários. A operação se tornou inviável?

No início deste ano nós anunciamos que o fechamento da unidade de Eldorado do Sul tinha como objetivo consolidar a nossa operação em São Paulo e em Camaçari, na Bahia. Essa era uma planta só de proteção feminina, para a marca Intimus. Esse encerramento não nos implicou em redução de capacidade. Hoje nós temos algumas equipes e máquinas novas. Incorporamos novas tecnologias à operação.”

O Brasil tem dimensões continentais. Quais são os desafios para desenvolver o potencial da empresa no País?

Claramente isso é um grande desafio. Há três anos, nós tínhamos uma posição no Nordeste e decidimos focar mais naquela área. Hoje, posso falar que essa é a região que mais cresce dentro do negócio da Kimberly-Clark no Brasil. Ou seja, independentemente da situação econômica do País, ainda temos espaço para engajar os consumidores com as nossas marcas. Nós temos, por exemplo, uma planta de produção em Camaçari, na Bahia, que dá suporte para parte do que é consumido no Nordeste e no Norte. Acreditamos muito no potencial que temos nesta região. A Kimberly-Clark tem uma posição muito sólida no Sul e no Sudeste do País, mas nos últimos anos vimos uma expansão forte também no Norte e no Nordeste.”

Recentemente, a Kimberly-Clark, por meio de sua marca Neve, anunciou um programa de aceleração para projetos voltados à melhoria do saneamento básico no País. Como isso funcionará?

“A Kimberly-Clark é uma companhia que completará 150 anos em 2022. Nós temos um programa de impacto de responsabilidade social e de respeito pelo meio ambiente. Esse programa tem cinco pilares. Um deles é de impacto social. Dentro disso, um universo que a Kimberly-Clark trabalha é o do saneamento básico. Fazemos isso porque parte do nosso portfólio é voltado ao universo da higiene pessoal, dos banheiros. Então, temos um compromisso global e nós, no Brasil, temos uma necessidade muito importante com o saneamento básico. De acordo com estudos, quase metade da população brasileira não tem acesso à coleta de esgoto. E metade da coleta de esgoto não se trata devidamente. Esse é um problema que a marca Neve toma para si, para tentar ajudar a resolver.”

Isso se encaixa dentro de uma estratégia global da Kimberly-Clark?

“Sim. Nós usamos o programa Banheiros Mudam Vidas para impactarmos a sociedade. A primeira coisa é trazer esse tema para cima da mesa. No Brasil, começamos com esse programa em 2015, dando patrocínio a um projeto da Unicef, na Amazônia Legal. A partir disso, pensamos em formas de impactar o Brasil através de parcerias com empreendedores para tentar procurar soluções acessíveis para comunidades que estão mais vulneráveis para resolver esse tipo de problema. Começamos com um piloto em 2017, em Milagres, no Maranhão. Por meio dessa parceria encontramos soluções para banheiros secos, impactando diretamente a comunidade. Depois, expandimos esse piloto para o Espírito Santo. O Brasil é um país continental, que tem diferentes climas e condições de umidade. Agora, nós fizemos um edital de projetos, que já teve inscrições encerradas. Esses projetos serão avaliados pela empresa e por parceiros, como a aceleradora de projetos Sense-Lab. A partir disso, vamos escolher de 10 a 12 projetos que vão receber uma mentoria e uma aceleração durante seis meses. Quatro deles serão escolhidos para receber um aporte de R$ 50 mil, cada um, pela Kimberly-Clark para acelerar essas soluções. O nosso compromisso é encontrar soluções acessíveis e sustentáveis para o País.”

 O Brasil detém um dos maiores problemas de saneamento básico no mundo, que não se resolverá apenas com o poder público. Qual é o papel da iniciativa privada para ajudar no objetivo de universalização do acesso à água tratada no País?

Eu acho que esse é um problema muito importante que temos. Isso afeta a produtividade e a saúde das pessoas. Muitas pessoas são afastadas do trabalho ou não podem ir à escola por conta de enfermidades causadas pela falta de tratamento de esgoto. Esse é um problema da sociedade. Não é de um governo, dessa ou daquela empresa. Nós, como companhia privada, tentamos melhorar de alguma forma as condições de todos os brasileiros. Acho importante que as empresas tenham compromissos de responsabilidade social.”

 Qual é a importância da diversidade de gênero para a iniciativa privada?

“A diversidade sempre é um compromisso muito importante para nós. Queremos ser equitativos em termos de gêneros e raças. No caso específico das mulheres, estamos muito orgulhosos. Hoje, 40% do corpo diretivo da Kimberly-Clark no Brasil é formado por mulheres. Isso já não é mais um desafio para a empresa. Estamos acima, inclusive, da meta global da companhia. Dentro da Kimberly-Clark, a mulher tem um espaço igual em termos de posição de liderança. Acho que nós tivemos um progresso sensacional nessa área. A Kimberly-Clark, por exemplo, foi pioneira para a extensão da licença maternal ou para a licença paternal, que tem o objetivo de ajudar o desenvolvimento da mulher após o nascimento do bebê, dando mais suporte para que ela consiga fazer suas atividades.”

Boa parte dos produtos da Kimberly-Clark está voltada à higiene de bebês. No mundo, existe uma onda em que menos crianças estão sendo geradas. Isso pode vir a ser uma preocupação para a empresa no futuro?

“Em 150 anos de história, passamos pela geração dos baby boomers e hoje nós estamos em uma etapa em que a expectativa de vida está crescendo. De fato, sim, temos que procurar novas soluções, agregar mais valor e incorporar mais produtos. Antes, estávamos somente com fraldas. Hoje, são fraldas, lenços umedecidos, cremes de assaduras, xampu etc. Estamos ampliando o portfólio. Além disso, a Kimberly-Clark é uma companhia que está presente em todas as etapas das vidas das pessoas. Então, se alguma categoria está mais desafiadora em termos de crescimento, outras têm oportunidades gigantescas. Hoje, o Brasil acelerou muito a expectativa de vida. A população do País formada por pessoas com mais de 50 anos cresce a cada dia. Ou seja, há um espaço enorme para desenvolver produtos para esse público. Já quando falamos de outros mercados, ainda existe uma oportunidade gigantesca para a categoria infantil.”

FONTE: Isto é DINHEIRO.