ColunistasFastmarketsJorge BarbosaNotícias

Tarifas de Trump não afetam tissue no Brasil, mas prejudicam o setor nos EUA

Por Jorge Barbosa, repórter de preços da Fastmarkets

A indústria brasileira de tissue está relativamente protegida e não deve ser significativamente afetada pelas tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos importados do Brasil. A medida está prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, mas o impacto sobre o segmento já vinha sendo sentido desde abril, com a aplicação da primeira tarifa, de 10%, que provocou uma forte queda nos embarques para o mercado americano. 

Desde 2024, os EUA se tornaram o principal destino das exportações brasileiras de tissue. O Brasil tem se destacado como fornecedor de bobinas jumbo para o mercado americano, com 15,8 mil toneladas embarcadas no ano anterior. Apenas no primeiro semestre deste ano, os embarques superaram esse volume, alcançando 18 mil toneladas, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). 

Apesar do avanço, os volumes enviados aos EUA, incluindo bobinas jumbo e produtos acabados, como guardanapos, papel higiênico e papel toalha, ainda representam apenas cerca de 1,5% da produção total de tissue no Brasil. Em 2024, o país exportou 100 mil toneladas de tissue para 50 países, o equivalente a 6,6% da produção nacional. 

Com 93% da produção destinada ao mercado interno, o setor de tissue brasileiro se mostra mais protegido frente às tarifas impostas pelos EUA. No entanto, há frustração entre os exportadores, já que o Brasil vinha dando passos firmes para se consolidar como uma plataforma relevante de suprimento ao mercado americano. Segundo fontes ouvidas pela Fastmarkets, a estratégia comercial das empresas deverá ser revista no curto prazo. 

Os EUA são um mercado deficitário em tissue e dependem de importações para atender à demanda interna, comprando cerca de 1,3 milhão de toneladas por ano de tissue produzido por outros países. O Brasil, que em 2023 ocupava a 11ª posição entre os principais fornecedores, subiu para a 9ª colocação em 2024 e, no primeiro semestre deste ano, apareceu como o 7º maior supridor do mercado americano. 

Apesar de retirar oportunidades atrativas de negócios, as tarifas de Trump provocam danos limitados ao mercado brasileiro de tissue. No entanto, o efeito oposto ocorre em relação à indústria americana do papel.  

Produtores nos EUA que falaram com a Fastmarkets sob condições reservadas já anteciparam que o preço do papel higiênico no mercado interno deve subir caso não ocorra uma mudança na aplicação dessas tarifas.  

Os EUA importam cerca de 2,8 milhões de toneladas de celulose de eucalipto do Brasil por ano, volume majoritariamente destinado à produção de tissue. Com a imposição da tarifa de 50%, a expectativa entre os players do mercado é de um impacto inflacionário, resultado da maior dificuldade para aquisição da commodity devido à nova taxa. 

Esses produtores americanos apontam que a demanda por celulose e tissue não pode ser 100% atendida pela produção local. A prioridade no mercado americano é a busca por mitigar os efeitos inflacionários das tarifas. “Há um limite para o que pode ser feito”, disse uma das fontes para a Fastmarkets.  

“Se os custos aumentarem significativamente, teremos que considerar o repasse ao consumidor final”, disse um player sob reserva. Embora haja quem aposte na postergação das tarifas, há muitas incertezas sobre o que deve acontecer nas próximas semanas.  

Mostrar mais

Fastmarkets

A Fastmarkets é uma líder global no mercado de índice de preços de commodities, com produtos na área florestal, metais, agricultura e crédito de carbono. Antigamente conhecida como RISI, ela publica no mercado brasileiro índices utilizados em transações de kraftliner, aparas, papéis gráficos e cartões, além de ser a detentora dos índices da FOEX, considerados benchmarking para o mercado de celulose.
Botão Voltar ao topo