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Suzano arruma a casa de olho em consolidação

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Enquanto boa parte da indústria terá um ano extremamente desafiador, a expectativa das fabricantes de celulose é outra. Altamente exportador, o setor é beneficiado pela alta do dólar. De quebra, os preços do produto têm se mostrado resilientes ao derretimento das commodities, que corroeu a cotação do petróleo e do minério de ferro. Nesse cenário, a Suzano, vice-líder do setor no País, atrás da Fibria, deverá começar a colher os frutos de uma intensa reestruturação empreendida nos últimos dois anos. É esse trabalho, feito aos poucos, que vai permitir à empresa ter um papel importante na esperada consolidação do setor no País.

Velho conhecido da indústria, com uma longa passagem pela Votorantim Cimentos, o executivo Walter Schalka chegou a Suzano no início de 2013 sabendo que a mudança teria de ser profunda. “A companhia tinha uma filosofia muito voltada ao crescimento”, disse ele ao Estado. “Diminuímos o ritmo e suspendemos dois projetos (um de celulose, no Piauí, e outro de energia renovável) para focar na redução da dívida e de custos. Percebi um potencial de extração de valor na base de ativos que já tínhamos.”

Houve avanços, mas Schalka sabe que a tarefa não está completa. O foco da empresa ainda está concentrado na redução da alta dívida, que chegou à marca de 5,2 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) em dezembro de 2013. Agora, a relação foi reduzida para 4,5 vezes, mas as obrigações ainda são altas e somavam R$ 9,7 bilhões no terceiro trimestre de 2014. A meta da Suzano é alcançar um múltiplo de 2,5 a 3 vezes o Ebitda entre o fim de 2015 e o início do ano que vem. Só assim, segundo Schalka, que a empresa terá chance de chegar como mandante à onda de fusões e aquisições projetada para o setor – e não como negócio a ser comprado.

Ao se esforçar para reduzir o endividamento, a Suzano trilha o caminho que a Fibria – resultado da união entre VCP e Aracruz – percorreu por mais de quatro anos. A líder do setor reduziu o peso de sua dívida a tal ponto que reconquistou, em 2014, o grau de investimento das agências de risco de crédito.

Eficiências

No entanto, o trabalho da Suzano, ao contrário do que ocorreu na Fibria, também exigiu muitos ajustes industriais. “A Suzano tinha deficiências industriais, enquanto o problema da Fibria, que é referência mundial em produção de celulose, sempre foi mais financeiro”, diz o analista Renato Antunes, do Banco Plural.

Schalka admite que a reestruturação financeira foi combinada com fortes mudanças operacionais. A primeira delas foi trazer o manejo florestal para dentro da empresa – antes, parte do trabalho era terceirizada. A meta, ainda não totalmente cumprida, é colher toda a madeira a no máximo cem quilômetros de distância das fábricas.

Outra mudança foi a compra de equipamentos modernos para as unidades antigas. Além disso, os gerentes industriais ganharam mais autonomia para desenvolver pequenos projetos de eficiência. Se a ideia é custar menos de R$ 3 milhões, a execução não precisa passar pelo conselho e esperar meses para ser aprovada.

Ao buscar eficiências internas, afirma o presidente da Suzano, o custo de produção por tonelada de celulose caiu 12% em dois anos, passando de US$ 580 para US$ 502. À medida que a operação da empresa fica mais “azeitada”, o volume de investimentos para manutenção da operação também tende a cair. Neste ano, ficará em R$ 1,5 bilhão, queda de 14% sobre 2014.

Com capacidade de produzir 4,7 milhões de toneladas de papel e celulose, a companhia planeja, em 2015, terminar de “digerir” o investimento de US$ 3 bilhões na unidade de Imperatriz (MA), inaugurada em dezembro de 2013 e que elevou em 40% da produção de celulose da Suzano. É por essa razão que, por enquanto, outros projetos de expansão devem ficar na gaveta.

A ideia de erguer uma outra fábrica de celulose no Piauí, que a antiga gestão queria ver pronta ainda em 2014, não tem mais data para sair do papel. Fontes de mercado duvidam da viabilidade do projeto, no qual a empresa já investiu R$ 500 milhões. Elas acreditam, no entanto, que a Suzano poderá recuperar esse valor com a venda de florestas. A proposta de produzir energia renovável usando restos de eucalipto também está em “stand-by”, de acordo com o executivo da Suzano.

Cautela

A resistência em anunciar novos projetos antes da redução do endividamento mudou a visão do mercado financeiro sobre a Suzano. As ações da empresa subiram 13,67% nos últimos 12 meses, mas cerca de 80% dos analistas que acompanham o papel da empresa preveem espaço para mais ganhos.

O analista Felipe Silveira, da corretora Coinvalores, recomenda a compra de mais ações da Suzano a seus clientes e a manutenção do investimento em Fibria e Klabin, que vêm apresentando ganhos há mais tempo. A SLW concorda que a Suzano tem apresentado “resultados sólidos” e tem conseguido reduzir seu endividamento, apesar de sua alavancagem permanecer alta.

Toda essa boa vontade reflete não só fatores de mercado – como a alta de 12,8% do dólar somente em 2014 e o preço da celulose acima de US$ 700 -, mas principalmente o “choque de realidade” que a empresa parece ter tomado, segundo Renato Antunes, do banco Brasil Plural. No passado, lembra ele, a pressa em anunciar novas fábricas se refletia em projeções de rentabilidade excessivamente otimistas.

Ao mudar radicalmente seu discurso, o analista diz que a nova gestão conseguiu ganhar algo que o mercado nem sempre está disposto a dar: o “benefício da dúvida”. Para não perder a confiança conquistada, a palavra de ordem dentro da Suzano para este ano de 2015 continua a mesma: austeridade.

O Estado de S. Paulo.