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Santher faz renegociação de dívidas e enxuga custos

Uma das mais tradicionais fabricantes de papel higiênico e toalhas absorventes do país, a Santher, dona de marcas líderes como Personal Vip, Snob e Kiss, deu uma cartada decisiva para sobreviver.

Ruy Haidar Filho, presidente da Santher, renegociou dívida de quase R$ 500 milhões com oito bancos: acordo assinado.

Depois de meses de negociação com oito bancos, a empresa da família Haidar conseguiu alongar quase R$ 500 milhões em dívidas, ao mesmo tempo em que promoveu uma ampla reestruturação interna, com enxugamento de gastos e pessoal. Agora, o plano é novamente trazer um executivo de mercado para comandar a operação.

“Daqui para a frente, o foco está no fortalecimento de marcas e diversificação de categorias”, disse o presidente da empresa, da terceira geração da família controladora, Ruy Haidar Filho.

Desde 2010, a Santher vem registrando consecutivos prejuízos. Nesse período, chegou a adotar algumas medidas para sair do vermelho, com relativo êxito em 2014, quando teve lucro líquido, e conseguiu manter as vendas anuais acima de R$ 1 bilhão. De janeiro a setembro do ano passado, a receita líquida estava pouco acima de R$ 1 bilhão.

Mas as ações não foram suficientes para evitar que a dívida elevada, os custos em ascensão, a crise econômica e ineficiências internas levassem-na a atravessar a pior crise em 80 anos de história. Para a renegociação com os bancos, a empresa contou com assessoria do Rothschild. Para rever estruturas internas, trabalhou com a consultoria Falconi.

Considerando-se os custos com matéria-prima, funcionários e outras áreas, o corte alcança até agora R$ 75 milhões – parte disso foi obtido em 2017 e parte neste ano, em um período de 12 meses. Uma economia bem-vinda em um momento de pressão dos gastos com matéria-prima – o aumento do preço da celulose adicionou sozinho R$ 49 milhões aos custos em 2017.

A inauguração de um centro de distribuição automatizado em Bragança Paulista (SP) e o fechamento de uma fábrica considerada obsoleta, em Governador Valadares (MG), estão entre as medidas que trouxeram ganho de eficiência. Pela métrica de faturamento líquido por funcionário, conta Haidar, o crescimento foi de 40% entre 2014 e 2017, ano em que houve ajustes no quadro de empregados. Hoje são 1,95 mil entre próprios e terceiros.

A segunda etapa de consultoria da Falconi será executada neste ano e o desejo da família é novamente se afastar da gestão. “A dificuldade não necessariamente é ruim. Ela pode ser libertadora. É preciso fazer diferente para alcançar resultados diferentes”, diz o presidente da Santher.

Ruy Haidar Filho, de 57 anos, assumiu o comando da companhia no início do ano passado com a missão de reorganizar um dos principais negócios da família. Vê em curso uma mudança de cultura que será fundamental para a virada da empresa, que há anos assiste a uma alternância entre acionistas e executivos de mercado em sua presidência executiva.


Entre 2013 e o começo de 2017, o comando dos negócios coube ao executivo Ricardo Botelho, que deixou a liderança da Coca-Cola Femsa Brasil para assumir a Santher. Antes de Botelho, Plinio Haidar Filho, primo de Ruy, ficou por dois anos na presidência da empresa, sucedendo três outros presidentes que tinham sido contratados no mercado. Segundo fontes do setor, ex-executivos da Santher reclamavam de elevada interferência da família no dia a dia da companhia. A família, por sua vez, deixava claro que interferia quando os resultados não apareciam – como o fez Fábio Haidar em 2013, quando presidia o conselho da empresa.

Ruy Haidar Filho diz que hoje não há dúvidas na família de que seu melhor lugar é no conselho de administração, pensando a estratégia de longo prazo. Mas, não há restrição quanto a cargos administrativos. Junto com a Fundação Dom Cabral, os Haidar já estão trabalhando na preparação dos acionistas da quarta geração, seja para uma cadeira no conselho, seja para um cargo executivo – que poderá ser ocupado mediante o atendimento de uma série de requisitos.

“A longevidade está na união verdadeira no conselho de administração”, afirmou Haidar. Ainda neste ano, o colegiado deve trabalhar em um novo planejamento estratégico de longo prazo para a empresa.

Pelo acordo firmado em janeiro com alguns dos maiores bancos no país – entre os quais Itaú, BB, Caixa, Santander, Credit Suisse, Deutsche Bank e Votorantim -, a Santher terá cinco anos para quitar R$ 484 milhões em dívidas, incluindo debêntures, com dois anos de carência para pagamento do principal. No novo cronograma, a maior parte dos vencimentos, ou R$ 387,3 milhões, ficou para 2022.

A renegociação ocorreu, praticamente, ao longo do ano passado, depois que a situação financeira da Santher se deteriorou e o patrimônio líquido ficou negativo. O descumprimento de obrigações assumidas em contratos de dívida levou os credores a subirem o tom e o Credit Suisse declarou o vencimento antecipado de determinados compromissos. Uma ação de execução movida pelo Credit contra a Santher ficará suspensa durante a vigência do acordo.

A empresa colocou em dia suas obrigações com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e acaba de publicar balanços trimestrais de 2017 que estava devendo. No início de janeiro, diante da ausência da publicação das demonstrações de 2016, que foram entregues no mês passado, a S&P Global Ratings retirou a nota de crédito da Santher.

Ruy Haidar Filho participou da renegociação e diz que o plano de negócios apresentados às instituições financeiras é “justo”. “Os bancos entenderam que o plano tem sentido técnico”, sem fornecer detalhes ou as projeções para os negócios nos próximos cinco anos. “É um plano factível, sem folga para um lado ou sobra para outro”.

Valor

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