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Racionamento de energia terá efeitos distintos sobre companhias de capital aberto

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Bancos de investimentos consideram cada vez mais factível um cenário de racionamento de energia elétrica neste ano e já começam a mensurar os potenciais impactos da restrição sobre as empresas de capital aberto. Autossuficiente em eletricidade e potencial beneficiária de um real desvalorizado em relação ao dólar, a fabricante de celulose Fibria, por exemplo, está entre as empresas preferidas dos investidores. As siderúrgicas Usiminas e CSN, por outro lado, devem ser prejudicadas pela forte exposição ao mercado interno.

No setor de bens de capital, Mahle e Randon também devem ser negativamente impactadas pela destinação da maior parte da produção a indústrias consumidoras brasileiras, enquanto a WEG é vista como menos exposta. Em consumo, eletrodomésticos e vestuário tendem a ser prejudicados pelo racionamento, a exemplo do ocorrido em 2001. Enquanto no varejo, lojistas de rua devem ser mais afetados do que os shoppings numa restrição elétrica oficial.

O Citi avalia que o racionamento é o resultado mais provável diante do panorama de chuvas projetado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O banco espera corte oficial de 10% a 20% da demanda, a depender das chuvas de fevereiro a abril, o que deve trazer três efeitos ao setor de materiais básicos: impacto sobre a oferta e o custo da energia elétrica; demanda final mais fraca pelos produtos; e desvalorização cambial.

Os analistas liderados por Alexander Hacking avaliam que os fabricantes de aços planos podem ser significativamente impactados pela demanda mais fraca dos consumidores industriais. Já o segmento de aços longos deve ser menos afetado, pela menor volatilidade no setor de construção. “Usiminas e CSN enfrentam o maior risco dado sua dependência da demanda doméstica de aços planos (especialmente diante dos preços baixos do minério de ferro)”, alerta o Citi. A Gerdau estaria protegida por sua diversificação internacional.

O banco pondera, porém, que um aspecto positivo seria se o governo elevasse o preço-teto para revenda de eletricidade. Em 2014, a revenda de energia foi bastante lucrativa para a Usiminas, que passou inclusive a registrar a atividade em seu balanço. Nos nove primeiros meses do ano passado, a companhia somou R$ 288,3 milhões no resultado de venda de energia excedente, contribuindo para lucro de R$ 325,8 milhões no período.

Em sentido contrário, o Citi avalia que para o setor de papel e celulose deve haver mais pontos positivos do que negativos num eventual racionamento, pois muitos produtores são autossuficientes e vendedores líquidos de energia elétrica. Também o real desvalorizado beneficiaria as empresas exportadoras. O banco avalia que a Fibria está mais bem posicionada nas duas frentes, gerando 117% da energia de que precisa e tendo 98% de suas vendas baseadas em exportação.

Em teleconferência para comentar os resultados do quarto trimestre, realizada ao fim de janeiro, o presidente da Fibria, Marcelo Castelli, reafirmou que um potencial racionamento de energia não deve afetar a companhia, mas alertou para a possibilidade de fornecedores enfrentarem dificuldades. “Temos um plano de contingência para cada gargalo que possa aparecer, não parece haver um ponto crítico e sim possibilidades. Mas podemos compensá-los e uma das maneiras é elevar as importações de insumos”, disse o executivo.

Na perspectiva do Citi, Duratex e a Klabin são as empresas de produtos florestais mais vulneráveis a um racionamento elétrico por serem consumidoras líquidas de energia e estarem sujeitas à demanda interna mais fraca. Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da Duratex, Flávio Donatelli, a produção de painéis de madeira da companhia pode ser concentrada em menos unidades em caso de um eventual racionamento.

“Podemos concentrar as operações em algumas linhas e fazer paralisação temporária em outras”, disse Donatelli, em teleconferência de resultados. O remanejamento é possível porque a empresa opera hoje com o uso de 75% a 80% da capacidade das unidades de painéis de madeira.

Para a Vale, o impacto de um racionamento seria neutro ou até mesmo positivo, se o dólar continuar valorizado, avalia o Citi. A companhia não teria impacto significativo sobre a demanda, e o consumo de energia pode ser reduzido fora das operações de minério de ferro, se necessário, avalia o banco.

O Santander acredita que os setores que não são autossuficientes em energia e com demanda cíclica serão os mais afetados num cenário de racionamento. Siderúrgicas como Usiminas e Gerdau, indústrias de bens de capital e eletrodomésticos e vestuário estariam entre os prejudicados. “Durante o racionamento de energia em 2001, os eletrodomésticos apresentaram queda de 3,7% na média, ao passo que o vestuário mostrou aumento de apenas 0,5% em termos nominais”, lembra o banco espanhol.

Segundo os analistas Daniel Gewehr e João Noronha, o setor de bens de capital está largamente exposto a uma possível escassez de energia, pois a maioria das empresas realiza um alto percentual de sua produção domesticamente. “Além disso, vemos toda a cadeia industrial possivelmente sofrendo um impacto negativo, o que pode aumentar excessivamente a oferta de matéria-prima e reduzir a demanda de modo geral”, escreveram em relatório.

Desse modo, a fabricante de peças de motor Mahle Metal Leve, a produtora de implementos rodoviários Randon e a fabricante de materiais de fricção Fras-Le seriam as mais expostas à escassez de energia, pelo elevado percentual de produção voltada ao mercado doméstico. A Mahle e a Romi, de máquinas industriais, têm a maior exposição ao aumento dos preços de energia em 2015. A primeira teria necessidade de renovar contratos para 40% de suas necessidades de energia este ano, a preços maiores, enquanto a segundo precisaria recontratar 85% de sua demanda elétrica até 2017, com 15% de exposição ao mercado à vista.

A ação mais exposta ao risco de racionamento de água é a Iochpe-Maxion, segundo o Santander, com cerca de 33% de sua produção em estados com alto risco de escassez de água. A WEG deve ser a menos afetada nos dois cenários, “pois a eficiência energética e o aumento nos preços da energia elétrica são os principais motivadores da tese de investimento da empresa no médio prazo”, avalia o banco. Além disso, a produção da companhia é realizada fora da área de racionamento.(Colaboraram Renato Rostás e Chiara Quintão)

Valor Econômico