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Os múltiplos papéis de Walter Schalka

Na tarde de 25 de dezembro, pouco depois das celebrações do Natal com a família, Walter Schalka, presidente da Suzano, embarcou em um voo em São Paulo, com destino a Imperatriz, município situado na região sudoeste do Maranhão, banhado pelo rio Tocantins. A viagem não tinha qualquer relação com ecoturismo. Schalka foi à cidade para dar o pontapé inicial na linha de produção da moderna fábrica de celulose que a empresa, dona de uma receita líquida de R$ 5,6 bilhões, acabara de construir no local. Na unidade foram investidos US$ 3 bilhões, incluindo a base florestal. Antes de retornar à capital paulista no dia seguinte, o executivo participou de um almoço com funcionários de todos os escalões.

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O encontro teve como objetivo agradecer à equipe pelo esforço para colocar de pé, no prazo previsto, um projeto que representa o maior salto nos 73 anos de existência da empresa controlada pela família Feffer. Schalka, como lhe é peculiar, diz que essa vitória foi fruto de um trabalho em equipe. Jogar para o time, aliás, se tornou uma espécie de mantra dentro da empresa. Com um estilo de gestão que valoriza o diálogo e o debate de ideias, o executivo implantou o que classifica de conflito construtivo, pelo qual diretores, supervisores e até gerentes têm liberdade para dar palpites nas áreas dos colegas.

“Nenhuma pessoa é capaz de tomar, sozinha, decisões acertadas ao longo de toda a sua trajetória”, diz. “O modelo americano do super CEO não passa de uma balela.” Usando uma metáfora futebolística, esporte pelo qual nutre uma paixão que beira ao fanatismo, especialmente no que se refere ao Santos, pode-se dizer que um dos papéis assumidos por Schalka é o de capitão do time da Suzano. Em seu primeiro ano à frente da equipe, ele optou pela tática da retranca, uma vez que os movimentos da empresa estavam limitados por conta do pesado endividamento líquido, de R$ 8,3 bilhões, equivalente a quase cinco vezes seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, taxas, depreciações e amortizações).

O ideal, de acordo com analistas, seria uma taxa de, no máximo, a metade (para efeito de comparação, a líder Fibria opera com um nível de alavancagem de 2,8 vezes.) Mas mesmo assim, o executivo conseguiu manter a Suzano bem posicionada na, digamos, tabela do campeonato do setor. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, a empresa subiu duas posições no ranking das 100 maiores exportadoras do País, ocupando a 32a colocação. Em 2013, os embarques de celulose e papel resultaram na cifra de US$ 1,218 bilhão, um incremento de 5,93% em relação ao período anterior. O número se mostra ainda mais importante em sua estratégia de jogo, pois nessa conta não está incluída a produção de Imperatriz.

Caixa forte: para melhorar a estrutura de custos, a Suzano aumentou em 8% o preço do papel e da celulose

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em 8% o preço do papel e da celulose

Quando foi recrutado para o cargo, há exatos 12 meses, Schalka, que até então dirigia a Votorantim Cimentos, sabia que teria pela frente grandes desafios. Na época, a Suzano enfrentava a desconfiança dos analistas do mercado financeiro, devido ao seu elevado endividamento, resultado da opção pelo crescimento acelerado, comandado pelo antigo CEO, Antonio Maciel Neto. Nesse contexto, ele precisou ser rápido e, ao mesmo tempo, preciso em suas decisões para melhorar a estrutura de custos, elevar a rentabilidade e colocar a fábrica de Imperatriz em operação. Conseguiu. Mais que se destacar na bucólica paisagem local, a unidade maranhense, que deverá gerar cerca de três mil empregos diretos, é a peça fundamental no novo papel que ele imagina para a Suzano no setor.

A previsão é de que já a partir de agosto a unidade comece a operar na capacidade máxima de 1,5 milhão de toneladas por ano, equivalente a 80% do 1,9 milhão de toneladas que saem das outras três fábricas de celulose. Além disso, vai garantir cerca de US$ 1 bilhão em receita bruta adicional por ano, levando-se em conta a cotação de US$ 770 por tonelada. A Suzano possui duas fábricas de papel. Pelo visto, o mercado tem gostado do que Schalka entregou até agora. Isso pode ser verificado na cotação dos papéis negociados na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Na quinta-feira 30, as ações preferenciais da Suzano fecharam cotadas em R$ 9,55, a melhor marca em 12 meses. A expectativa dos analistas é ainda maior.

A média do preço-alvo para o papel é de R$ 11 e a máxima chega a R$ 14, estimada pelo banco BTG Pactual. Porém, o campo de jogo continua pesado. Uma questão que pode se transformar em uma pedra no sapato do executivo é o fato de outros fabricantes, no Brasil e no Exterior, planejarem colocar em operação até 2018, fábricas com capacidade de colocar no mercado 11,2 milhões de toneladas extras de celulose. Trata-se de um volume equivalente a 21% da capacidade atual, de acordo com estimativas do Banco Espírito Santo de Investimentos. Nesse contexto, conseguir elevar os preços no patamar desejado por Schalka, que achou insuficiente o acréscimo de 8% impostos aos clientes em 2013, pode ser tão difícil como marcar um gol de placa.

Aposta pesada: unidade de Imperatriz (MA) consumiu US$ 3 bilhões e vai empregar cerca de três mil pessoas

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“O mercado de celulose deve passar por um momento crítico ao longo de 2014, se compararmos com o que aconteceu em 2013”, afirma Ariane Gil, analista sênior da subsidiária do Grupo Bursátil Mexicano (GBM). Apesar disso, Ariane acredita que ainda deve haver algum espaço para manobra. Isso porque, a entrada em operação de fábricas mais modernas, acaba tirando do mercado unidades mais obsoletas e incapazes de competir em qualidade e preço. Schalka concorda. Mas lembra que esse modelo de atuação começa a mostrar sinais de esgotamento, uma vez que pressiona as margens de ganho do setor como um todo. “Faz tempo que as empresas estão operando com baixa rentabilidade”, diz o presidente da Suzano.

As razões, além da oferta excessiva, diz ele, incluem um fenômeno que está aquém da capacidade de intervenção das papeleiras: o avanço do processo de digitalização das informações. Por conta disso, o executivo vê como inevitável um processo de consolidação no Brasil. E como fica a Suzano nessa história? “Existem duas opções: crescer de forma orgânica, o que não seria desejável, devido ao elevado nível de endividamento, ou por meio de aquisição”, afirma. Até lá, Schalka pretende seguir adiante com seu plano de reestruturação da Suzano. Mais que apenas mexer nas despesas, ele pretende se dedicar ao ganho na estrutura produtiva, capaz de gerar dividendos por longos períodos.

Isso será feito por meio do que ele chama de ganhos estruturantes. Um deles será colocado em prática na área florestal. Hoje, cada hectare de eucalipto plantado no Brasil rende 45 m³ de celulose por ano. Por meio de sua controlada FuturaGene, de biotecnologia, a Suzano está prestes a conceber um clone com produtividade 20% maior. Outra ação, também na área florestal é a redução do raio médio de distância entre a fábrica e as florestas. “O ideal é no máximo 70 km”, diz Schalka, que, desta vez, joga na retranca e não revela o número atual. Mas se for levado em conta a obsessão do “professor” por resultados, uma coisa é certa: a equipe terá de entregar essa meta no menor período.

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