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Ignorar a geopolítica ficou caro para a indústria

Por Renzo Bittencourt

Se você atua na indústria de bens de consumo, personal care, farmacêutica ou em segmentos industriais correlatos, provavelmente já percebeu: a geopolítica deixou de ser apenas um tema de fundo e passou a influenciar decisões estratégicas do negócio — mesmo quando isso não aparece explicitamente nas reuniões ou nos relatórios.

Isso se manifesta no dia a dia — custos, prazos, contratos, abastecimento — mas também em reflexões mais profundas sobre encurtamento de cadeias, verticalização seletiva, decisões de make or buy e redesenho produtivo. Esse movimento não começou agora. Ele vem se formando ao longo dos últimos anos e ganhou tração à medida que o ambiente global se tornou mais volátil.

O modelo tradicional de globalização, construído nas últimas décadas com foco em eficiência, custo e escala, atravessa hoje um ponto de inflexão importante. A estratégia sempre esteve presente — o que mudou foi o contexto. Segurança, previsibilidade e resiliência passaram a disputar espaço com o preço na tomada de decisão industrial.

E aí vem a dúvida que muitos evitam: será que nossas decisões ainda estão olhando para o mundo real — ou para o mundo como ele era?

UM MUNDO MAIS INSTÁVEL — E ESTRUTURALMENTE DIFERENTE

De 2024 para cá, esse cenário deixou de ser apenas tendência e passou a gerar impacto concreto. Disputas por poder — por meio de conflitos armados e comerciais, sanções econômicas, tensões regionais e reorganização de alianças globais — alteraram fluxos logísticos, pressionaram custos e redesenharam cadeias produtivas.

Além dos insumos tradicionalmente classificados como estratégicos, outras matérias-primas de economia de escala passaram a ganhar relevância. Em alguns casos, produtos antes abundantes no mercado local passaram a ser direcionados à exportação para atender regiões afetadas por sanções ou restrições comerciais. Em outros, a oferta se tornou mais concentrada, exigindo maior esforço da indústria brasileira para manter o ritmo produtivo.

O resultado é um ambiente em que disponibilidade, custo e previsibilidade deixaram de caminhar juntos.

ONDE ISSO BATE PRIMEIRO? EM SUPRIMENTOS

Na prática, os impactos aparecem rapidamente nas áreas de suprimentos, compras, planejamento, comércio exterior e logística:

  • Maior volatilidade de fretes, taxas e seguros em determinadas rotas;
  • Menor confiabilidade de prazos e lead times mais instáveis;
  • Aumento da taxa da urgência, com compras spot, fretes emergenciais e soluções fora do padrão;
  • Rupturas pontuais que afetam o cumprimento de planos de vendas e lançamentos;
  • Pressão recorrente sobre margens e necessidade de revisar preços, packs ou portfólio;
  • Exigências crescentes de rastreabilidade e critérios ESG como condição de acesso a mercados.

Em muitos casos, o custo não aparece apenas na planilha: ele se materializa no atraso, na ruptura, na perda de margem e na necessidade de decisões reativas. O que antes era tratado como exceção passou a integrar o cenário base das decisões industriais.

O BRASIL NESSE CONTEXTO: POTENCIAL, MAS COM VULNERABILIDADES

O Brasil possui um mercado interno amplo e diverso, ainda que com elevada sensibilidade a preço na maior parte das categorias. Ao mesmo tempo, mantém uma base industrial relevante, historicamente orientada ao atendimento do mercado doméstico. Quando o olhar se volta à inserção internacional, porém, o quadro muda.

A pauta exportadora brasileira permanece concentrada em poucos produtos e em alguns mercados específicos, como China, Estados Unidos e hubs europeus. Essa concentração aumenta a exposição a choques externos e reduz a margem de manobra das empresas quando o cenário global se altera — especialmente em setores intensivos em insumos importados ou dependentes de cadeias longas.

AS PERGUNTAS QUE PASSARAM A FREQUENTAR AS MESAS DE DECISÃO

Nesse novo contexto, algumas questões deixaram de ser teóricas e passaram a orientar decisões reais:

  • O lançamento daquele produto acontecerá no prazo se depender de embalagens específicas ou de insumos que não existem em solo brasileiro?
  • Nossos parceiros distribuidores conseguem atender toda a demanda em um ambiente de atrasos recorrentes e escassez pontual?
  • As margens ainda fazem sentido diante da volatilidade logística, cambial e tributária?
  • O posicionamento de preço suporta novos custos sem comprometer volume ou competitividade?
  • Estamos preparados para absorver mais uma ruptura — ou apenas reagir quando ela acontece?

NÃO É SOBRE PREVER O MUNDO. É SOBRE DECIDIR COM MAIS CONTEXTO

A geopolítica não virou moda. Ela se consolidou como contexto operacional e estratégico. Empresas que ainda tratam esse tema apenas como ruído externo tendem a reagir tarde. As que incorporam essa leitura às decisões de suprimentos, supply chain, logística e precificação conquistam algo cada vez mais raro: continuidade e previsibilidade em um ambiente instável.

Para os segmentos de tissue, personal care, bens de consumo e indústria em geral, essa mudança já está em curso. O jogo não é mais apenas executar bem — é decidir com mais contexto, antes dos concorrentes e até de players de outros segmentos.

E esse jogo, definitivamente, já começou. Ignorar a geopolítica ficou caro.

A pergunta agora é: quanto ainda custa adiar essa discussão dentro da empresa?

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Renzo Bittencourt

Renzo Bittencourt é gerente de Comércio Exterior na Eurofarma, especialista em compras estratégicas internacionais e operações completas de Supply Chain, com foco em importação e exportação. Acumula 20 anos de experiência em empresas multinacionais dos setores farmacêutico, bens de consumo, higiene e cosméticos, sendo os últimos 15 anos em cargos de liderança, conduzindo projetos de otimização logística, gestão de riscos e desenvolvimento de fornecedores. Dedica-se a integrar inteligência de mercado e eficiência operacional, promovendo uma visão estratégica e atualizada da cadeia logística internacional.
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