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Entenda o caso da briga pela Eldorado Brasil

Depois de perder na Justiça a briga pelo controle da Eldorado para o Grupo J&F, os donos da Paper Excellence terão de aguardar até dois anos por uma decisão da câmara de arbitragem. Conheça os detalhes da batalha bilionária pela Eldorado Brasil

Há um mês, no fim da tarde do dia 24 de agosto, o empresário José Antonio Batista da Costa, presidente do Grupo J&F e neto do fundador, José Batista Sobrinho, teve de fazer uma viagem inusitada, fora dos padrões de conforto dos assentos da Primeira Classe com os quais está acostumado. Acompanhado por um de seus executivos, embarcou num voo de última hora à cidade americana de Los Angeles para se reunir com o magnata asiático Jackson Widjaja, dono da Paper Excellence (PE), seu sócio na Eldorado Brasil Celulose desde setembro do ano passado. Como todos os voos disponíveis estavam praticamente lotados, só conseguiu um par de passagens pela companhia aérea Latam, em classe econômica, com escalas em Santiago, no Chile, e Lima, no Peru.

Outros dois advogados da J&F seguiram em voo separado, por uma rota não menos desconfortável. Mas o trajeto de quase 20 horas não significou o fim da via-crúcis. Ao desembarcar, pouco antes das 9h da manhã de sábado, o quarteto seguiu direto para o The Westin Los Angeles Airport, um discreto e barato hotel nos arredores do terminal aéreo, endereço indicado por Widjaja. Assim que os brasileiros chegaram ao local no horário combinado, a secretária do empresário asiático informou um novo ponto de encontro para a reunião: o luxuoso The Ritz-Carlton. De táxi, foram mais 40 minutos de deslocamento. Eles conseguiram, enfim, se sentar à mesa para discutir os meandros de um dos maiores conflitos societários instalados no Brasil atualmente, resultado da assinatura do contrato de venda da Eldorado, há um ano, por R$ 15 bilhões – sendo R$ 7,5 bilhões pelas ações da família Batista e outros R$ 7,5 bilhões em dívidas. O acordo se consolidou como o maior negócio realizado no Brasil no ano passado. No entanto, nas duas reuniões feitas nos Estados Unidos, uma no sábado e outra no domingo, não houve nenhum avanço nos impasses. Os brasileiros retornaram sem qualquer solução.

Ativo mais valioso: desde a assinatura do contrato de venda da Eldorado, em setembro do ano passado, o dólar subiu e a celulose se valorizou. A empresa avaliada em R$ 15 bilhões pode valer hoje mais de R$ 20 bilhões

O périplo dos executivos da J&F exemplifica com precisão a conturbada relação instalada, nas últimas semanas, entre eles e os sócios orientais. A Paper Excellence, com sede na Holanda e integrante do grupo indonésio Asia Pulp & Paper (APP), adquiriu 49,5% do capital da Eldorado em setembro de 2017, por R$ 3,8 bilhões. O contrato previa que aquisição do restante do capital e a liberação das garantias dadas pela J&F nos empréstimos junto aos bancos credores deveriam ocorrer dentro do prazo de 12 meses – até 3 de setembro de 2018. Mas o prazo não foi cumprido. De um lado, os estrangeiros alegam que possuem todo o dinheiro para quitar as dívidas, hoje em cerca de R$ 8 bilhões, mas que a liberação das garantias, vinculada a bancos como o BNDES, o Santander, o britânico Canary Wharf Bank e instituições de fomento da Escandinávia, está sendo dificultada.

De outro, a J&F se recusa a receber sem que as garantias sejam liberadas e diz que, diante do não cumprimento do prazo, um novo contrato deveria ser feito. Por isso, a Paper Excellence deu início uma batalha judicial contra a J&F, dona de 50,5% do capital e controladora da empresa. A empresa estrangeira sustentou, em seu processo encaminhado à Justiça, que está sendo impedida de concluir o negócio. O argumento não convenceu. Na semana passada, depois de tentar um desfecho para o caso judicialmente, os asiáticos sofreram dois reveses, em primeira e segunda instância. O caso, agora, será julgado pela Câmara de Mediação e Arbitragem da Câmara Internacional de Comércio Internacional (ICC, na sigla em inglês), em São Paulo. A definição pode levar até dois anos. Junto com a análise do mérito da ação, será julgado também um pedido da J&F de indenização contra o grupo asiático em razão do desgaste gerado pelo conflito.

O balde de água fria nos executivos da PE partiu da 2ª Vara Empresarial de São Paulo, que negou à empresa as liminares em que pedia a ampliação do prazo de conclusão do negócio por tempo indeterminado e que a J&F aceitasse um aporte dentro da Eldorado para liberar as garantias (entre elas ações de empresas do grupo, patrimônio pessoal da família Batista e imóveis). Essa medida a tornaria a maior credora de sua própria empresa e faria os Widjaja controladores da Eldorado antes mesmo do fechamento do negócio. “Essa manobra dos asiáticos geraria um desequilíbrio na correlação de forças”, afirmou uma fonte ligada às negociações, que pediu para não ter o nome revelado por se tratar de um processo que corre em segredo de justiça. “Era uma forma de assumir o controle da Eldorado descumprindo o contrato assinado, além de configurar uma fraude”, disse.

Negócio em família: Jackson Widjaja (acima) recebeu do pai, Eka Tjipta Widjaja (ao lado), a missão de comandar a Paper Excellence em todo o mundo

Embora não tenha conseguido esticar o prazo do contrato, a PE pediu uma convocação de assembleia de acionistas para reivindicar uma das cinco cadeiras no conselho de administração, o que foi atendido pelos controladores. Eles serão representados por José Luis Salles Freire, cofundador do escritório TozziniFreire Advogados. Procurada pela reportagem, a Paper Excellence informou que nenhum executivo estava disponível para conceder entrevista e divulgou uma nota oficial. “A Paper Excellence informa que seus direitos foram garantidos nas decisões judiciais recentes até a constituição do tribunal arbitral.

A companhia reitera que tem disponíveis os R$ 11,4 bilhões (em recursos próprios) necessários para conclusão da aquisição da Eldorado Brasil.” A J&F também se manifestou por meio de nota. “A J&F esclarece que, após 12 meses de vigência, o contrato não foi terminado, em vista da não liberação de suas garantias pela Paper Excellence, condição essencial do negócio. Muito embora a arbitragem esteja prevista em contrato, a J&F lamenta que a PE tenha iniciado disputa judicial e continuará a defender seus direitos. E espera ter como sua sócia a mais respeitosa relação possível, sempre com vistas ao melhor interesse da Eldorado”.

No mercado, comenta-se que a J&F resiste em vender o controle da Eldorado porque a assinatura do contrato ocorreu em um ambiente de grandes dificuldades de caixa para as empresas da família Batista, após as delações dos empresários Joesley e Wesley Batista. O grupo vendeu, além de parte da Eldorado, a fabricante de calçados Alpargatas, dona da marca Havaianas, e o laticínio Vigor. “No desespero, a J&F saiu se desfazendo de ativos, mas viu que vendeu barato”, disse o analista de investimento Pedro Galdi, da Mirae Asset. “Acredito que o cenário para celulose, que continua subindo de forma muito expressiva, levou os brasileiros da J&F a cogitar uma revisão de valores do contrato, o pagamento de um prêmio.”

Capacidade máxima: a produção de celulose de eucalipto da Eldorado em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, está em 1,7 milhão de toneladas por ano, acima da capacidade projetada para a unidade, de 1,5 milhão de toneladas

A Paper Excellence, de fato, alegou à Justiça que a J&F, a portas fechadas, sugeriu um aumento de R$ 6 bilhões para a venda do controle, elevando o negócio para cerca de R$ 21 bilhões, mas o argumento não foi aceito pelos juízes. A J&F nega ter feito qualquer proposta de revisão dos valores do contrato. Mas, inegavelmente, a alta do dólar valorizou a Eldorado nos últimos 12 meses. A empresa, avaliada em R$ 15 bilhões há um ano, hoje pode valer mais de R$ 20 bilhões. Além disso, a Eldorado chama a atenção pelo seu bom desempenho financeiro, com endividamento em trajetória de queda. A alavancagem, por exemplo, que estava em 2,8 vezes sua geração de caixa no começo deste ano, deverá fechar 2018 em 2,1 vezes. A fábrica da empresa em Três Lagoas (MS), projetada para produzir 1,5 milhão de toneladas de celulose de eucalipto por ano, está produzindo 1,7 milhão de toneladas. “Justamente pelo fato da commodity celulose ter subido muito e o dólar ter superado R$ 4, a Eldorado passou a ser um ativo mais cobiçado pelos dois sócios”, afirmou Rafael Gad Camano Passos, analista da Guide Investimentos. “Com oferta restrita e demanda mundial aquecida, o setor de papel e celulose continuará sendo o foco de grandes investidores em todo o mundo.”

A versão da J&F é outra, segundo a DINHEIRO apurou. O grupo tem negado qualquer tentativa de dificultar a conclusão do contrato de venda, e diz que as dúvidas em relação ao grupo asiático foram os principais entraves para que a companhia conseguisse substituir as garantias necessárias junto aos credores. O retrospecto não contribui para a reputação da família Widjaja e das empresas do grupo APP. Em março de 2001, a empresa suspendeu todos os pagamentos da dívida, aplicando um calote de US$ 14 bilhões, o maior da história do continente asiático. Em valores atualizados para hoje, a dívida seria de quase US$ 20 bilhões. Parte da dívida foi renegociada, mas o maior percentual não foi pago até hoje. Com o nome sujo na Indonésia, em Cingapura e nos Estados Unidos, os Widjaja se deslocaram para a China, em 2003, onde o governo se tornou um grande aliado. A família ampliou as operações em território chinês e abriu um braço empresarial na área de construção civil em Hong Kong.

A nova estrutura operacional fez com que o modelo de negócio da APP e da Paper Excellence se tornasse algo complexo de compreender, inclusive aos olhos dos bancos internacionais. A empresa não tem uma sede definida. Possui operacões na Indonésia, na China, na Holanda e no Canadá. Além disso, o presidente Jackson Widjaja se apresenta como chinês, de família indonésia, mas com residência “na área da América do Norte”, segundo ele teria dito a alguns dos executivos da J&F. “Não se sabe quem é Jackson de verdade, onde a empresa atua e de onde vem o dinheiro que eles dizem possuir, e que nunca conseguem apresentar uma ‘commitment letter’ (confirmação de recursos emitida por instituições financeiras) de nenhum banco”, disse uma fonte ligada à J&F. Os receios do mercado em torno da idoneidade da companhia estrangeira e da família Widjaja também podem ter sido as causas para o fracasso da Paper Excellence na tentativa de compra da Fibria, do Grupo Votorantim, adquirida pela Suzano com o pagamento de R$ 29 bilhões.

Irmãos Batista: após a delação de Wesley (à esq.) e Joesley Batista, o Grupo J&F precisou vender ativos, como a Alpargatas, o laticínio Vigor e parte da Eldorado Celulose para recompor o caixa da companhia

A PE chegou a oferecer R$ 20 a mais por ação, em uma oferta de R$ 40 bilhões. Fontes ligadas ao negócio afirmam que a Paper Excellence também não teria conseguido apresentar garantias bancárias para comprar a Fibria. Logo depois que a Fibria foi vendida para a Suzano, o economista Paulo Rabello de Castro, então presidente do BNDES, concedeu entrevista à DINHEIRO e comentou o caso. “Houve outro interessado, que não chegou a ser proponente de coisa nenhuma, é importante que se diga isso: a Paper Excellence. Eles soltaram um valor de R$ 67 por ação para fazer uma compra de porteira fechada, mas a proposta não é exatamente comparável, pois não deixava nenhuma ação da empresa resultante na mão do BNDES”, disse Rabello de Castro. “Nas últimas horas, meio que farejando que não ia chegar a tempo de fazer coisa nenhuma, ela (Paper Excellence) soltou pelos jornais um valor de R$ 71 por ação.”

Além dos episódios recentes envolvendo a empresa da APP no País, a origem do grupo é controversa. Fundada em 1972 pelo patriarca da família, Eka Tjipta Widjaja, na Indonésia, a APP teve sócios ligados à Hadji Mohamed Suharto, general que liderou um golpe militar e governou a Indonésia de 1967 a 1998. O ditador é considerado o principal responsável pelo rápido crescimento da APP. Em 1994, a empresa mudou grande parte de sua operação para a Cingapura, onde começou a contrair financiamentos para executar um agressivo plano de expansão. De maneira muita rápida, a companhia foi fortemente alavancada. No entanto, de 1996 a 1998, auge da crise dos tigres asiáticos, os resultados financeiros da empresa dos Widjaja desabaram. A companhia produziu apenas 1,5 vez mais fluxo de caixa do que seus custos de juros. Não deu outra. Listada na Bolsa de Nova York, altamente endividada e com diversos ADRs emitidos, a companhia recorreu à SEC dos Estados Unidos, em setembro de 2000, para conseguir aprovar a alteração das condições de cerca de US$ 2 bilhões em títulos. Em dezembro daquele ano, o preço das ações da APP chegaram a
US$ 0,54, 96% menor do que seu valor 12 meses antes.

Atualmente, a Paper Excellence é liderada pelo jovem Jackson Widjaja, filho do primogênito de Eka Tjipta Widjaja, o patriarca da família, que hoje, aos 97 anos, não participa mais dos negócios de forma ativa. Desde que Jackson começou a negociar a compra da Eldorado, não existem registros dele na fábrica em Mato Grosso do Sul tampouco na sede da J&F, em São Paulo. Nesse período em que a Eldorado era negociada, Jackson esteve poucas vezes no Brasil para se encontrar com os acionistas da J&F. No final das contas, fica claro que ainda há muitas dúvidas entre os Batista e os Widjaja nessa disputa bilionária.

Fonte: Isto é Dinheiro

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