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Tissue Planet: indústria global discute competição justa, descarbonização e o futuro da fabricação de papel

Em dois dias de apresentações em Lucca, lideranças globais convergiram sobre os deslocamentos que estão reformatando a indústria de tissue: importações asiáticas, custo de energia, descarbonização rentável, IA aplicada à operação e a urgência de um level playing field

Realizada em Lucca, a segunda edição do Tissue Planet, organizada pela Toscotec, posicionou-se como fórum estratégico da indústria global. Executivos de produtores europeus, latino-americanos e norte-americanos, fornecedores de máquinas e celulose, consultorias e academia convergiram para um diagnóstico comum: o setor vive transformação estrutural puxada por demografia, geopolítica, custo de energia e expectativas de sustentabilidade.

Alessandro Mennucci, CEO da Toscotec. Foto: Nexum Group.

Na abertura, o CEO Alessandro Mennucci e o Sales Director Marco Dalle Piagge enquadraram o evento como espaço comunitário: “Sustentabilidade, responsabilidade, IA e inovação não são tópicos separados, mas parte da mesma conversa.”

Mariarosaria Taddeo, professor of Digital Ethics and Defence Technologies – Oxford Internet Institute | University of Oxford. Foto: Nexum Group.

ÉTICA, IA E OS LIMITES DA DELEGAÇÃO A MÁQUINAS

Mariarosaria Taddeo (Oxford Internet Institute) defendeu a ética como fundamento para repensar a produção industrial na era da IA. “A IA não é substituta de talento”, afirmou, propondo que “confiança é uma forma de delegação sem supervisão; quando delegamos a uma máquina, esquecemos que continuamos responsáveis”. O risco central, segundo ela, não é a substituição de empregos, mas a concentração de dados, infraestrutura e modelos em poucos atores, com impactos sobre soberania, competição e custo material da IA em energia, água e infraestrutura.

INDÚSTRIA EUROPEIA: 36,6 BILHÕES DE EUROS E PEDIDO POR RECIPROCIDADE REGULATÓRIA

O roundtable europeu, moderado por Marco Dell’Osso (MDG35), reuniu Carlos Reinoso (ETS), Martin Krengel (Wepa Group) e Volker Zöller (Essity). Reinoso apresentou o primeiro estudo socioeconômico abrangente do setor: o tissue europeu gera 36,6 bilhões de euros em valor agregado, 19,7 bilhões em vendas anuais e sustenta mais de 421 mil empregos; para cada 1 euro gasto, 0,91 euro permanece na Europa. A migração total dos banheiros públicos europeus para toalhas de papel poderia evitar 9,8 milhões de infecções por gripe ao ano. Zöller alertou que os custos de energia na Europa são cerca de 150% dos da China e 350% dos dos EUA: “Queremos regulação justa, com campo de jogo nivelado para quem já cumpre regras rígidas de sustentabilidade, certificação florestal e rastreabilidade.”

Luigi Lazzareschi CEO da Sofidel e Marco Dell’Osso Founder da MDG35. Foto: Nexum Group.

“NÃO VAI HAVER UMA NOVA NORMALIDADE”

Luigi Lazzareschi (Sofidel) ofereceu o contraste mais agudo entre os dois lados do Atlântico: mais de 52% da receita do grupo vem dos EUA, com dois terços do resultado gerado lá. O mercado norte-americano combina ausência de excesso de capacidade, base de clientes concentrada, único idioma e legislação; a Europa é o oposto, com varejistas fragmentados e uma indústria que “instalou máquinas demais nos últimos 20 anos”. Rejeitou a ideia de “nova normalidade” e apontou pressão dupla: demografia (em 1963, mais de 1 milhão de nascimentos na Itália; no ano passado, menos de 400 mil) somada a volatilidade, inflação e custo do gás. Sobre as importações asiáticas, foi enfático: as tarifas dos EUA não fecharam fábricas na Ásia, apenas redirecionaram fluxos para o Norte da Europa. Defendeu que a EUDR, devidamente implementada, já seria suficiente para inviabilizar boa parte das importações desleais.

SUSTENTABILIDADE E CADEIA DE SUPRIMENTOS; ROTA PARA A FÁBRICA AUTÔNOMA

Olli Härkönen (Essity) apresentou diagnóstico claro: as operações diretas respondem por cerca de 8% das emissões totais; o desafio está no Escopo 3. A empresa opera, desde junho, sua primeira planta totalmente livre de combustíveis fósseis. “Não dependemos apenas de tecnologia ou de capital. Dependemos das pessoas que executam a estratégia todos os dias.” Em seguida, Andreas Endters (Voith Paper) apresentou a próxima geração da tecnologia, capaz de operar com 95% menos água e mais de 20% menos energia, e a suíte MillOne, desenvolvida com a IBM, que aplica IA à camada de dados (“Data Arc”). Cerca de 1.200 sistemas de reconhecimento e monitoramento já operam em campo, com ganhos de eficiência de 10% a 20%, apoiados por quatro data centers, um em cada continente.

Luís Bueno, vice-presidente executivo de Bens de Consumo da Suzano. Foto: Nexum Group.

PANORAMA GLOBAL E OPORTUNIDADE LATINO-AMERICANA

Luís Bueno (Suzano) abriu o segundo dia: o tissue movimenta cerca de USD 48 bilhões e cresce 3% ao ano, com China e EUA somando metade do mercado em lógicas opostas. A China amplia capacidade mais rápido que a demanda, redireciona excedente para Sudeste Asiático, Austrália e América Latina e avança em verticalização para celulose. Sobre a Europa, destacou capacidade concentrada, energia e logística como desvantagem, pressão crescente de importações e sustentabilidade como diferencial competitivo. Na América Latina, leu oportunidade: mercado consolidado, baixa penetração de categorias além do papel higiênico e clara oportunidade de trade-up. No Brasil, o consumo per capita varia de 5 kg/ano em SP a 2-3 kg/ano no Norte e Nordeste, 90% do mercado é papel higiênico (contra 60% global) e o cenário de preços é um dos piores do mundo.

Nuno Santos, executive director da The Navigator Company. Foto: Nexum Group.

DESCARBONIZAÇÃO INTEGRADA E OTIMIZAÇÃO DE FURNISH

Nuno Santos (The Navigator Company) detalhou os compromissos da portuguesa, integrada de floresta a produto acabado: redução de 86% nas emissões ETS até 2035 (42% já entregues), 63% em Escopo 1 e 2 e 30,5% em Escopo 3. Entre 20 produtores ibéricos e franceses, é a que entrega o produto acabado com a menor pegada (FisherSolve). Apresentou quatro ações concretas: turbina a vapor alimentada por caldeira de biomassa, nova caldeira de biomassa em Vila Velha de Ródão substituindo gás natural, steam boosters e plantas solares em telhado. “Cada investimento precisa ter TIR positiva.” Darryl Holt (UPM Pulp) complementou destacando que o tissue é o único segmento de papel em crescimento até 2040 (cerca de 8 milhões de toneladas adicionais globais), enquanto as adições de capacidade de celulose dos últimos 10 a 15 anos foram dominadas por hardwood, tornando o softwood progressivamente mais escasso. Em piloto TAD, o conteúdo de softwood caiu de 60% para 35% mantendo todas as métricas-chave, com economia de 8,5% por tonelada; em escala industrial, 50% do softwood foi substituído por birch em papel toalha.

Steven Sage, VP Sustainability & Corporate Communications da Kruger Products. Foto: Nexum Group.

ESG OPERACIONAL, NET-ZERO RENTÁVEL E INTEGRATED DESIGN

Steven Sage (Kruger Products) apresentou o Reimagine 2030: 31% de redução de emissões (meta 35%), 40% em intensidade de água (meta elevada para 45%) e 90% da fibra já FSC certificada. Destacou que a sustentabilidade migrou de baseline para diferencial e que o setor sofre com excesso de claims genéricos (“eco”, “green”, “natural”) que geram desconfiança. Eduardo de Almeida (AFRY) defendeu que descarbonização bem desenhada melhora a rentabilidade: em casos analisados, projetos chegam a 50% de descarbonização com TIR superior ao baseline, com curva íngreme e desenho site a site, e citou a Espanha como vislumbre do futuro das redes europeias. Peter Oksakowski (BHM INGENIEURE) lembrou que cerca de 50% do capex de uma nova fábrica está em edificações e infraestrutura, e que o integrated design pode gerar até 20% de redução em capex, até 25% em opex e até 40% no custo total de ciclo de vida. “Processo e intralogística devem dirigir o layout, não o contrário.”

PATRIMÔNIO INDUSTRIAL EUROPEU E CENÁRIO ATÉ 2040

Elena Troia (EuroVast) propôs uma releitura provocadora do ESG, começando pela governança, depois social e só então ambiental. A companhia familiar opera 10 sites entre Itália, Reino Unido e Holanda, e construiu sua trajetória pela recuperação paciente de cinco fábricas desativadas; instalou o primeiro eYMP (Yankee elétrico com camisa metálica) do mundo e tem meta science-based de reduzir Escopo 1 e 2 em 42% em dez anos. Encerrando, Philipp Jaki (Fastmarkets) ofereceu o quadro macro: a Europa terá crescimento populacional negativo em 2026 e depende de gás natural para cerca de 84% da produção de tissue; as importações asiáticas para a Europa passaram de 142 mil toneladas em 2022 para cerca de 340 mil em 2025, enquanto o gap de custo de produção Ásia-Europa abriu para USD 300 por tonelada e o frete de um contêiner de 40 pés caiu de mais de USD 10 mil para USD 3 mil. Sua recomendação: rotular com clareza a origem dos produtos e reposicionar o storytelling em torno de origem e sustentabilidade. Até 2040, China e América do Norte responderão por cerca de metade do consumo global; a China seguirá como principal motor de crescimento em volume.

UMA INDÚSTRIA QUE PRECISA DECIDIR JUNTO

O Tissue Planet 2026 explicitou que importações asiáticas, energia, descarbonização rentável, IA aplicada à operação, integridade de cadeia e regulação assimétrica não podem mais ser tratados de forma isolada. Os palestrantes convergiram em três pontos: a necessidade de um level playing field competitivo com aplicação efetiva das regras europeias existentes (EUDR, ETS); a descarbonização como vetor de competitividade, com casos concretos de TIR positiva; e o papel das pessoas e da governança como condição central. Para a indústria latino-americana, a leitura é de oportunidade: enquanto Europa e Ásia disputam um tabuleiro pressionado, a região aparece como espaço de crescimento real, com potencial de trade-up, baixa penetração de categorias além do papel higiênico e ganhos de eficiência e descarbonização ainda a destravar.

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